quarta-feira, 8 de abril de 2020

Depois - Parte I



As pessoas reclamam a perda da liberdade, por terem que estar em suas próprias casas, nos locais e com as pessoas que escolheram para compartilhar suas vidas. Estranho. Será que só eu já não me sentia livre, antes do confinamento decretado? Só em mim a sensação do risco do aprisionamento a um mal muito maior existia há muito tempo? Justo eu, que arrisquei libertar-me de bens, de compromissos, de presenças e quase me exilei espontaneamente? 

Outro dia uma amiga me lembrou, ao telefone, que eu comentava há muito tempo que o mundo já tinha acabado. Que a vida à qual normalmente nos referimos não existia, fazia tempo. Essa sensação de estar vivendo um depois me acompanhava nos últimos anos, trazendo-me um olhar distante para tudo. 
O mal-estar, que as ruas encardidas e fedorentas da cidade me produziam, chegava à dor física ao ver pessoas vivendo como ratos de esgoto, no meio das praças, por onde passava o tempo todo, distraidamente, uma população satisfeita. Como conseguem uns e outros? – eu me perguntava, enquanto apressava o passo, tentando desviar meu olhar que se prendia, hipnotizado, na criança maltrapilha ao lado do mendigo bêbado que empurrava a mulher que o xingava, rindo, num esgar de deboche, para o PM que, alheio a tudo, falava ao celular, enquanto as baratas borbulhavam nos bueiros disputando com as ratazanas os restos da feira-livre e do supermercado fétido, que alardeava promoções de comida, deteriorada e conservada em formol, com que as pessoas lotavam carrinhos de compras, estufando o peito, mais ou menos ostensivamente, de acordo com a quantidade arrebanhada, paga com cartões de crédito cujos limites são forma de identificação maior que os sobrenomes.

Os vendedores ambulantes, defendendo seu direito ao trabalho sem horário, aparentemente sem patrão e que lhes garanta um rendimento mínimo, já formavam um cenário móvel e sonoro para o enorme pandemônio armado. O metrô vomitava gentes que se atropelavam na urgência de chegar à superfície e continuar enlouquecidamente sua marcha para um futuro que já não havia. Mas seria possível que só eu enxergasse tudo isso? Só o meu coração doía a ponto de me roubar a inspiração, o apetite, a libido, a paciência, a saúde? Como seria possível me conectar com as flores das bancas multicoloridas, se elas já estavam misturadas, como se fossem da mesma espécie, a grosseiras peças de plástico e fossem oferecidas por vendedores que comiam a mesma quentinha engordurada que matava a fome de tanta gente, enquanto diziam o preço, embalavam as plantas e recebiam o dinheiro, mastigando apressadamente a comida e todo o lirismo perdido da possibilidade de ser um florista?

Os pivetes, às dezenas por todo canto, davam encontrão em quem podiam e levavam-lhe alguma coisa que trocariam por qualquer entorpecedor de realidade. Como censurá-los? Quantos cafés eu mesma precisava tomar por dia para conseguir manter meus olhos abertos e minha mente afiada? Quantas vezes, ainda que sentindo-me enfraquecida pela fome, meu paladar não despertava, bloqueado pelos cheiros de uma infinidade de restaurantes, lanchonetes, barraquinhas de pastel, de churros, de tapioca ou pipoca profanadas por queijo derretido fedido, das frutas e legumes que sobravam das feiras, tudo temperado pelo odor inconfundível de urina, fezes, pontas de cigarro esmagadas no chão, embebidas no caldo preto da chuva acumulada, escarro, peças de roupas imundas abandonadas, largadas pelo caminho!

Só eu percebia que o mundo já tinha acabado e estávamos mortos-vivos perambulando num limbo, na periferia do inferno? Só eu me senti agredida por um mesmo banco manter duas agências lado-a-lado, com atendimento diferenciado, uma perfumada desde a calçada, higienizada, oferecendo cafezinho, brindes e crédito imediato, enquanto na outra os clientes precisavam se amontar, esperar nas filas, implorar por um empréstimo, pagar juros mais altos? Só para mim as notícias tenebrosas foram se tornando tão inverossímeis, já que não provocavam nenhum movimento de transformação nos ouvintes? Só eu passei a ter horror de novelas, programas humorísticos ou até músicas que vinham (há décadas!) cultivando hipocrisia, crueldade, desrespeito, preconceitos, como se fossem simples entretenimento? Só pra mim as infinitas entrevistas passaram a causar desconforto, porque não inspiravam confiança?

Os amigos e até parentes achavam que eu exagerava. Podia-se (e acreditam que ainda possam) – eles diziam - parar o carro, descer no estacionamento do teatro, do cinema, do restaurante, do shopping, sem precisar entrar em contato com tudo isso que pode vir a incomodar. Podia-se (e acreditam que ainda possam) dar alguma ajuda a um e a outro carente que se encontre (e aí inclui-se os atores mambembes), prestigiar artistas (de sucesso, é claro, de preferência celebridades), participar de um movimento de benemerência e depois beber alguns drinques, fumar uns, tomar um tranquilizante ou um antidepressivo e aplacar o mal estar, dando prosseguimento aos negócios, àquilo que ainda chamam  de relações, ao projeto de êxito que foram treinados a construir.

Só a mim, provavelmente, ocorreu que as comemorações em família tinham perdido o sentido, se o que contava não era mais o encontro e os afetos compartilhados (fáceis ou difíceis), mas que sempre se esperava criar ali, um clima de excitação sem fim e uma encenação de felicidade, facilmente substituída, ininterruptamente, durante todo o ano, pelos agrupamentos com amigos, que passaram a ser todos os que se pode juntar: nas redes sociais, nos incontáveis almoços, jantares, festas, nas viagens organizadas coletivamente... Só eu via que tudo passou a ser uma exibição sem fim? Exercício inconsciente de parecer ser, ao invés de ser. Independente da classe social, o importante é o que pensa o outro. O quanto se pode despertar sua inveja, chamada, erroneamente, de admiração. Não importa se é pela beleza (a própria ou do parceiro), pelo  desempenho profissional ou social, por ter mais charme, pelos filhos parecerem  herdeiros da esperteza que inclui a valorização do ter sobre o ser, o que parece contar é o quanto a torcida grita pelo gol, mesmo que o jogador esteja exausto e nem torça, de coração, pelo time em que joga.

Acordei, após o apocalipse, faz tempo. E passei a vagar, perdida nos dias que vieram depois. Sim, tentei evitar. Antes, recolhi-me no campo e tentei falar metaforicamente através dos mitos. Busquei as Belas Palavras, como dizem os Guarani. Mas até esse movimento passou a ser capturado, para ser colocado no lugar das excentricidades. Recatei-me, para não desonrar a herança ancestral. Esta perdurará eternamente nas nuvens, garantida pelo Anhang dos Anhangs. É verdade que muitos alertam, faz tempo, para o risco do fim do mundo. Sábios falam em adiá-lo. Mas eu sei que é inútil. O mundo, como o conhecemos - os que fomos capazes de perceber e chegaram a tempo pra isso -  já acabou. Logo estaremos todos, como os escafandristas da composição buarqueana, recolhendo sobras, buscando reconstruir lembranças destroçadas, peças de um grande quebra-cabeça que não soubemos montar com o cuidado necessário. 

sábado, 25 de janeiro de 2020

Nas Nuvens


Antes, eu escrevia  com lápis. Apontados a jeito, em páginas de papel encorpado, de preferência.

Mais tarde, acostumei-me às canetas: às tinteiras, que borravam o lado do dedo, depois às esferográficas, de tintas azul escuro ou preto, pelo meu gosto.
Naqueles tempos, eram cadernos e mais cadernos (raras folhas soltas), sempre preenchidos quando aparecia um desejo incontornável de registrar ideias: poemas, cartas, redações (encomendadas ou espontâneas).

Em finais dos anos 1970, queimei todo o acervo de registros de amores, dores, alegrias, exaltações, desejos, agradecimentos, revoltas, sonhos...  Aconteceu depois de uma amiga, que morava no exterior, me dizer que me via, como os judeus perseguidos durante a Segunda Guerra, tentando salvar, em baús, seus tesouros. Mudando frequentemente de casa, eu preservava, em malas antigas, o que eu considerava a riqueza maior da minha vida - meus escritos.
Mas quando li, na biografia de Freud, que ele (se não me falha a memória), aos 26 anos, queimara tudo o que escrevera até então, totalmente identificada com seu gesto, tendo a mesma idade, resolvi imitar seu gesto. Os papéis arderam durante toda uma noite. Com uma vizinha a meu lado, eu ia lendo cada texto e lançando-o às chamas. Uma cerimônia solene, um ritual de passagem.
No dia imediatamente posterior, em minha sessão de análise, após ouvir meu relato,meu analista disse-me que aquele fora um gesto de esperança. Eu, certamente, acreditava que poderia continuar criando - ele declarou. Gostei de ouvir aquela interpretação. Era um bom vaticínio e eu o adotei.

Nesse tempo, eu já escrevia à máquina, mas só profissionalmente, reproduzindo textos alheios ou passando a limpo os meus próprios. Cartas, até hoje, escrevo à mão e sigo sendo uma missivista de plantão.
Com o passar dos anos, as máquinas de escrever  foram se aperfeiçoando, oferecendo corretores, teclados variados e eu, ao começar a criar livros didáticos, para minha Escola Viva, fazia-os ou manualmente (com caligrafia desenhada página por página, depois reproduzidas em mimeógrafos e, mais adiante, em cópias xerográficas), ou usava uma máquina de escrever que adquiri especialmente para aquela finalidade, com teclado especial, de fontes grandes e bem legíveis.
Quando meu filho foi estudar fora do Brasil, logo de início, nos escrevíamos regularmente  - cartas e cartões, feitos à mão. Depois, o computador chegou a nossas vidas e passamos a escrever e-mails, que, depois de lidos, eu imprimia e ia guardando... Colecionada esta correspondência, anos depois, presenteei-o com um álbum que conjuga suas duas partes e que lhe permite ver como fomos desenvolvendo nossa relação, com respeito pela independência mútua e com tantos sentimentos construtores!
Um dia, uma sobrinha, formada em Informática, me estimulou a experimentar fazer os livros didáticos no computador. Quase morri de excitação quando descobri que podia voltar atrás, quantas vezes fosse preciso, corrigindo o texto em tempo presente, reformulando, cortando e colando – tudo aquilo que eu fazia, literalmente, com tesoura e cola, nos rascunhos, rabiscos e re-escritas infindas. Todos os originais dos livros foram refeitos no computador e salvos, possibilitando re-edições, correções, compartilhamentos, um sem fim de possibilidades, impensáveis muito pouco tempo antes.

Quando escrevi meu primeiro livro – "Enquanto papai não volta..." – o original foi produzido à mão, quase sussurrado, como poesia... E ainda, quando escrevi "Vasos Sagrados", processo que me tomou 6 anos de pesquisas, mesmo já sendo usuária da tecnologia, residia parte do tempo na zona rural, com dificuldade de acesso à Internet e, muitas vezes, com interrupção do fornecimento de energia, o que me levou a escrever a maior parte do texto manualmente, remendando, cortando e colando, à moda antiga.

Depois seguiram-se outros livros e, com a necessidade de divulgá-los, ao mesmo tempo em que exercia meus trabalhos de psicanalista e de coordenadora de grupos de leitura e reflexão, sem poder me ausentar de minha cidade, frequentemente, passei a usar a Internet, as redes sociais e todo o aparato tecnológico, cujos segredos ia conseguindo desvendar e usar, a meu favor. Tornei-me uma internauta, claudicante, mas persistente.

Surgiu nesse tempo meu primeiro blog. Lembro-me que aquela mesma sobrinha, que me apresentara à informática, me informou que Saramago havia iniciado um blog, à mesma época. Que incentivo! Escrever num blog foi um bom exercício, que ainda hoje me traz frutos, por leitores que me cumprimentam, por publicações presentes que reproduzem aqueles textos iniciais. Todo esse movimento de me atualizar foi um recurso necessário, para não perder hábitos de comunicação que me estruturaram, como leitora e que me edificaram, como escritora.

Sim, sou do tempo em que se abria os jornais, na manhã de domingo, com a cerimônia e prazer de quem ia encontrar os grandes cronistas, e se deliciar com sua prosa. Sou do tempo em que íamos à Biblioteca Municipal regularmente, buscar gratuitamente livros da melhor qualidade, que  propiciavam o enriquecimento de nossas férias, com leituras deliciosas! Sou do tempo em que ir aos Correios e, até mesmo, escrever as cartas confortavelmente sentada nas escrivaninhas maravilhosas, que ficavam à disposição do público, no saguão de entrada, contendo pincel e cola de excelente qualidade para colar selos e fechar os envelopes, fazia parte de uma rotina regular, para nós, os seres humanos epistolares.

Ainda vou aos Correios. Ainda escrevo cartas e cartões à mão. Ainda frequento bibliotecas. Em Portugal, felizmente, elas são maravilhosas e oferecem espaços e oportunidades de excelente qualidade. Mas, nem é preciso confessar, porque já se faz óbvio e amplamente conhecido, minha militância atual acontece na Internet. E mais: escrevo muito mais no laptop do que com minhas dezenas de canetas (muitas tinteiras, que coleciono com muito carinho). 
Mas, de fato, sempre que mando um email que não seja de assunto comercial, sinto-me traindo o verdadeiro tempo da comunicação. Porque, para mim, o ideal é que haja um intervalo entre a emissão e a recepção da mensagem. Espaço que garante a magia. E mais: nada se compara ao ato de abrir um envelope, cerimoniosamente, tentando antever, quase adivinhar seu conteúdo. Por isso a correspondência pessoal é secreta e violá-la equivale a crime, eu penso.

No entanto, este mesmo tempo sagrado, profanado nas urgências modernas e o espaço sacralizado, supervalorizado em iguais condições, fazem-nos, pouco a pouco, repensar nossas posses, nosso direito a estar e, mais que isso a permanecer, em determinado lugar. Já não me sinto mais uma exceção por ser nômade, mas antes uma precursora, num mundo em que a grande maioria das pessoas já vive de cá pra lá. Basta ver a quantidade de empresas de mudanças que surgem a cada dia e a horda de turistas eternos a empurrar malas de rodinhas, mundo afora. O metro quadrado de uma habitação, de um escritório ou de um galpão vale ouro, hoje, da mesma forma que o valor de cada minuto de nossas vidas é computado em moeda internacional.

Pois, de tudo isto, resulta, aos mais atentos, a percepção de que a tal hora da inevitável passagem chegou.
Nos últimos anos, sentindo de perto essa realidade, doei a maior parte de meus haveres. Os livros foram entregues a bibliotecas públicas e a universidades ou doados a alguns dedicados amigos e parentes, que os iriam usar, em breve tempo.

Paralelamente, como autora editada por 4 diferentes editoras, acabei por ir percebendo a ilusão da relação comercial que se estabelece, quando alguém se propõe a comercializar sua obra. No passado, cada exemplar do livro era numerado, de modo a haver controle da quantidade vendida. E cada tiragem correspondia a uma edição. Hoje, os livros são produzidos em série e os autores não têm como acompanhar nem a distribuição, nem a venda. As editoras, por sua vez, declaram-se eternamente em prejuízo e também correm para encontrar o espaço digital como recurso para continuar sobrevivendo.

E eis que, de repente, me vejo, de forma totalmente independente, produzindo e publicando “Vasos Sagrados” como e-book. Uma ousadia, que, no entanto, é totalmente condizente com meu processo.
No ano passado, depois de haver coordenado grupos de leitura e reflexão por mais de uma década, experimentei retomar esse trabalho, por via online. Morando fora do Brasil e querendo atender à demanda que havia para voltar a trabalhar “Mulheres que correm com os lobos”, o magistral livro de Clarissa Pínkola Estés (que foi minha inspiração para escrever “Vasos Sagrados”), concebi um formato de vídeos, postados na Internet e de encontros online periódicos. Alcançamos muito sucesso nesse trabalho e já me vejo ensaiando a repetição dele.

O que virá depois disso? Que é da menina que gosta de desenhar caligrafia e que corre aos correios, nos intervalos? Respondo-lhes que ela vive em mim. É a revisora do processo afetivo de tudo que faço. Não sei dizer se as livrarias sobreviverão, se as editoras imprimindo livros de papel conseguirão superar as crises, se ainda haverá papéis de carta e envelopes à venda, nos próximos anos. Tudo o que sei é que é preciso resistir, encontrando caminhos que nos permitam continuar o processo de comunicação, que nos caracteriza como humanos. 

Ainda mais agora, quando já não vivemos em regiões geográficas tão próximas, não podemos nos calar e nossas palavras precisam chegar ao outro, aos outros; precisamos ouvir suas respostas e estabelecer diálogos, pensar e sonhar juntos.  Precisamos continuar contando nossas histórias, oralmente, por escrito, grafadas ou enviadas pela nuvem, nas nuvens, como gosto de dizer. Como o sopro divino – o Anhang dos Anhangs, dos nossos ancestrais.  


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Por bem amar



O amor encontrou minha casa arrombada e destruída.

Passara por aqui a paixão. Chegara repentinamente, iluminando com tanta intensidade o espaço, que foi cegando os olhos de tudo.
Preencheu cada cantinho irreverentemente, expulsando hesitações, temores, cuidados e ensaios.
Nada me parecia faltar, desde então. E o próprio desejo já era satisfação, sem sequer ter sido expresso.
A beleza que a paixão produzia era tão impregnante, que eu podia admirá-la, profundamente dentro e infinitamente fora, a um só tempo.
Durou, até. Mas, num súbito, extinguiu-se e, atrás de seu rastro, restou bem pouco.

Depois, reuni forças para acender o fogo.
Comecei a catar os cacos da louça quebrada, as páginas dos escritos rasgados, evitando olhar meu rosto cansado, no espelho espatifado.
Foi, então, que o amor entrou. Não por convite. Foi o abandono que o chamou.
Quase em silêncio, pisando de mansinho, começou a tecer seu manto: um quase imperceptível afago, um olhar mais demorado, uma flor exposta num vidro vazio, uma semente a germinar.
E foi-se deixando ficar, mesmo quando parecia não estar mais aqui.
Integrou-se no leito que acolhe, nas dobras da roupa que aquece, na cadeira que apoia e na água que escorre, lava o corpo e mata a sede.

Hoje, vive no silêncio e no canto de pássaros, mesmo quando estes não vêm.
Colore o final da tarde e faz girar as pás dos moinhos distantes, que o espalham, displicentemente, mundo afora...
Diariamente o amor abre e fecha a porta, azeitando as dobradiças para que não ranjam e eu não me assuste.
Acolhe minhas inquietações, com placidez, porque sabe que vão passar.

Quando veio, o amor aceitou que eu não tivesse nada. Trouxe as mãos vazias e me alimentou de sonhos macios.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Pelos caminhos da vida terrena, a eternidade



Nasci envolta numa atmosfera religiosa. A escolha de meu nome veio do desespero de minha mãe, ao me ver quase natimorta. Clamando imediatamente por Nossa Senhora, prometeu chamar-me Maria, em homenagem à Grande Mãe, se eu sobrevivesse. Horas depois, já superada a tensão, uma freira - amiga da família - sugeriu que eu fosse Inez, em louvor (e compromisso!) à santa-mártir que morreu assassinada, para resguardar a própria virgindade. Sou do Espírito Santo por herança paterna, certamente longinquamente ligada aos mesmos princípios.

Não, não renego meu nome. Longe disso, gosto muito dessa combinação, que me tornou inegavelmente portuguesa, desde o princípio, e agraciada por tantos desejos amorosos e bem intencionados, que, uma vez compreendidos e elaborados, a nada me submeteram.

Na infância, estudei em escolas católicas. Se as experiências vividas ali me fortaleceram a sede pela justiça, porque estranhava a hipocrisia e a competição estimuladas em cada detalhe (mesmo quando me favoreciam), foi por isso, também, que me tornei essencialmente uma educadora e uma psicanalista.

No Colégio Notre Dame de Sion, além de aprender a valorizar a cultura francesa, encontrei a Soeur Cecília. Eu tinha 8 anos quando recebi, pelas suas mãos, os valores cristãos presentes nos Evangelhos. Em suas aulas de Religião, ela nos convidava a encenar e, mais que isso, a interpretar detalhadamente os textos do Novo Testamento. Éramos orientadas a buscar, nas entrelinhas deles, as lições de humanidade, transmitidas por Jesus aos apóstolos, que mais tarde as transcreveram, permitindo que se espalhassem pelo mundo, através dos tempos. 
Sem plateia e sem censura, Soeur Cecília fazia um lindíssimo trabalho nada pretensioso, dentro de sala de aula. A consciência que tenho hoje da importância que aquelas vivências tiveram para mim faz meu coração vibrar, em gratidão àquela educadora inigualável!

Mas, na adolescência, a vida me envolveu em duas situações críticas, que me levaram ao total desencanto com a Igreja. A primeira diz respeito à Confissão. Um monsenhor, sem nenhuma sensibilidade e respeito, entediado com a repetição de meus pequenos e insossos “pecados”, sussurrados mais por imposição do ritual, que por necessidade interna, censurou-me por estar sempre a cometer as mesmas falhas e ameaçou não me dar mais a absolvição. Demorei um tanto a perceber que ele queria, de fato, era ouvir um repertório mais estimulante e variado. 
Naquele dia, deixei o confessionário me sentindo rejeitada e até mesmo insultada. Não mais me confessei. Ainda bem. Corria o risco de me tornar uma grande “pecadora”, se quisesse corresponder a suas expectativas...

Pouco tempo depois, numa situação em que desconfiei que a Igreja Católica se prestava a uma atuação política não explicitada, sentindo-me confusa, procurei o Bispo Diocesano, a quem julgava conhecer suficientemente, com a expectativa de que pudesse ser um bom orientador naquela questão. Desejava que clarificasse, para mim, os acontecimentos que eu vinha presenciando e que não estava conseguindo compreender. 
Para meu terror, depois de me ouvir, ele me encaminhou ao Serviço Secreto de Informação do Exército. Pretendia, simplesmente, que eu me tornasse uma espiã, a favor da Ditadura Militar. Pasmem, se quiserem! Um dia ainda hei de contar, com detalhes, essa história. Mas, trago-a, aqui, por me fazer lembrar o motivo pelo qual me afastei deliberadamente da instituição Igreja Católica.

Para reforçar meu desencanto, ao me aproximar, muito tempo depois, de outras religiões, senti repetir-se a valorização de atitudes de interesses materiais, de controle, de poder sobre o outro. Apenas confirmei o que eu já sabia, portanto.
Mas nem tudo foi perdido. Pouco a pouco, venho encontrando na Natureza (interior e exterior) o espaço sagrado onde me recolher. E o faço, regularmente, sentindo o mesmo êxtase que me provocava o incenso das cerimônias que, com tanto fervor, frequentei no passado.

Aonde quero chegar com essas recordações, e o que me levou a evocá-las? Talvez vocês estejam aguardando que eu faça uma ancoragem no presente. Saio de minhas divagações individuais e aporto, na esperança de que nos possamos encontrar, em nossas reflexões mútuas:

Recebi há pouco, uma postagem sobre o Sínodo da Amazônia e, lendo as palavras do Papa Francisco, confirmo que o mais importante do que foi vivido na minha trajetória, ficou mesmo dentro de mim. Referindo-se aos críticos que atacam suas propostas quase revolucionárias, o Papa diz:

“Porque lhes falta a coragem de assumir assuntos terrenos, eles acreditam que estão assumindo os de Deus. Porque têm medo de fazer parte da humanidade, pensam que são parte de Deus. Porque não amam ninguém, iludem-se, pensando que amam Deus.”

Isto me fez pensar, com tristeza profunda, na quantidade de pessoas queridas, em que constato uma postura de negociação com o Divino. Semelhante ao que Paulo Freire denuncia que se faz com a Educação - ao construí-la num princípio bancário - sinto que a maioria das pessoas concebe a religião como um espaço de barganha. Elas como que depositam sua fé (?) - expressa em sacrifícios, em trabalhos servis à instituição, em tentativas de conversão de outras pessoas, em trocas de benesses - em busca de uma ampla proteção superior, que lhes garanta viver o lugar de filhos prediletos, isentos de sofrimentos e reconhecidos irrestritamente. Em palavras mais diretas: que lhes traga dividendos!

Em nome de uma doutrina que repetem sem compreensão, julgam e condenam - sem direito a apelação - seus semelhantes, chegando mesmo a maltratá-los e, mesmo assim, sentindo-se superiores a eles, em merecimento. Creem que esse investimento contínuo e cego lhes trará segurança e lucros. Em resumo, querem alcançar um idealizado paraíso, no delírio de se tornarem divinos, isolando-se no aprisionamento do egoísmo e da arrogância estéreis.

De Roma, as notícias, que nos chegam, mostram que o Papa Francisco está sofrendo uma enorme pressão de opositores aos princípios que defende. Nem poderia ser diferente. Ele ensina, sem pudor, que a tradição tem que estar voltada para a preservação do futuro, irrigando e alimentando -  como seiva -  o corpo maior que é a Vida, para que ela se renove e continue a frutificar.  Desse modo, descendo do púlpito a que foi alçado, aproxima-se cada vez mais do  Jesus crucificado, um ser humano feito Deus através da simplicidade, da humildade, do despojamento e da bondade e da profunda capacidade de compaixão, com que passou pela Terra.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Toque de alerta


Há quem me julgue excessivamente reativa, agressiva e até violenta, em meus comentários nas redes sociais.
Não sou mesmo, nem pretendo ser, uma pessoa absolutamente doce, tranquila ou desligada. Mas também não sou inconsequente, irresponsável ou cínica.
Claro, eu poderia fingir não ver e não ouvir, como fazem muitos que seguem aguardando o desfecho dos conflitos, para se posicionar a favor... de quem estiver no comando, é claro.

Nasci em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, lugar onde fazia sempre muito calor.  Quando eu era criança, aquela cidade era conhecida como a terra do Tenório. Tenório Cavalcanti fazia, na vida real, um personagem misto de bandido e justiceiro, mostrando-se extremamente poderoso e misterioso – uma espécie de cangaceiro urbano. Em Caxias, de então, enxergar era ver, de frente, as valas negras e sentir seu cheiro fétido, denunciante da podridão social.

Cresci em Petrópolis, nas montanhas do mesmo Estado do Rio, numa época em que a cidade era sempre bastante fria, envolta na neblina de um ambiente formado pelas consequências da ocupação mista de alemães e de mineiros, em sua maioria. Por alguma razão, parece-me que, aos poucos, as pessoas dali foram alimentando a pretensão de serem herdeiros da Coroa. Assim, Petrópolis não perdeu, ainda hoje, o ranço de se julgar A Cidade Imperial, e por isso não se preocupa em resolver nem os problemas de saneamento, nem aqueles gerados pelo alto índice de preconceitos e de arrogância, que a caracterizam. Em Petrópolis, conformar-me com o que via, sem denunciar ou buscar transformar, seria ter-me tornado mais uma pessoa medíocre e pretensiosa.

Morei no Rio de Janeiro que, próximo ao mar, deveria garantir horizontes amplos e esperança renovada a seus habitantes. E tem isso, em parte, a Cidade Maravilhosa. Mas, cheguei tarde demais, talvez, e tive que conviver, dolorosamente, com o descaso das camadas sociais privilegiadas, moradores dos bairros considerados nobres, que diariamente usufruem da servilidade que impõem a trabalhadores, cujo valor humano e social não reconhecem. O Rio de Janeiro é uma escola de superficialidade, encravada numa paisagem magnífica, cujas benesses são propriedade de uma casta. Ficar no Rio de Janeiro teria me exigido aprender a rir e calar-me, mesmo quando meus olhos quisessem chorar.

Hoje, vivo distante do Brasil. Assisto, de longe, o desmonte de meu país de nascimento, já tendo uma segunda nacionalidade herdada, que me garante uma velhice mais coerente com o que desejo ser e com o que sigo buscando ir formando em mim, até o fim de meus dias.

Para me comunicar com os amigos e conhecidos de terras distantes, acostumei-me a frequentar as redes sociais, na esperança de que, em alguma hora surjam, ali, as boas notícias com que sonho e pelas quais aguardo a cada momento, ansiosamente. Mesmo correndo o risco de que, com elas, alguém possa me provar que fui pessimista demais. Ah, como eu desejaria me penitenciar por ter (quem sabe, apressada ou levianamente?) feito avaliações tão severas, indevidamente!

No entanto, o que constato, pelas notícias diárias, é o extravazamento das valas negras  e a expansão dos terrenos desérticos morais, transformando o país num enorme terreno  estéril, geográfica e emocionalmente, onde não existe nenhum respeito à vida, nenhum pudor em fazer do egoísmo uma atitude banal, nenhum comprometimento com a realidade, nenhuma valorização do cuidado, da compaixão, da solidariedade.

Pergunto-me, muitas vezes, o que ainda sigo defendendo, se já nem mais tenho a ingenuidade de pensar os seres humanos como uma espécie em desenvolvimento?

Parece-me que sigo escrevendo, aos jorros, para não sucumbir. Para defender minha saúde psíquica e minha capacidade de sentir. No amontoado de inverdades, mentiras, declarações e denúncias criminosas, crueldades, perversões, descaso e frieza em que vivemos, o risco maior é virarmos robôs, zumbis, criaturas fakes, como essas que nos vêm tentando aprisionar.
Quando a gente se encolhe, se acomoda e se esconde, definha. E nosso verdadeiro self, nosso eu mais profundo, centro energético de nossa capacidade de criar e de transformar, vai-se desidratando e sucumbe. Assim, para não lidarmos com a indignação, com o medo, com a insegurança, podemos acabar impedidos de amar, porque somos - cada um de nós - um universo, onde esses campos sombrios existem e precisam ser identificados, para ser integrados e, só assim, fazer parte do fortalecimento necessário à existência plena.

Este momento era pra ser uma reflexão compartilhada, apenas. Acabou por se tornar um alerta. Se for possível, ouçam-no.



domingo, 27 de outubro de 2019

Celebrando a vida



Hoje é dia 27 de outubro, uma das datas em que se festeja o nascimento de Lula.

Escolho, como homenagem a ele, retomar meu Blog, para deixar minha mensagem à defesa dos direitos humanos, que ele tão bem representa.

Há mais de um ano, venho escrevendo publicamente apenas no Facebook, mesmo conhecendo os riscos que isto impõe: ser controlada, censurada, até perseguida e dispersar minhas reflexões em postagens instantâneas. Isto tudo,  além da dor de conhecer, ali, facetas cruéis de supostos amigos o que, muitas vezes, me obrigou a rompimentos, talvez definitivos. Por outro lado, levando em consideração a má qualidade e tendenciosidade da mídia em geral, o Face acabou por se constituir em um canal por onde receber notícias de parceiros (velhos e novos) e poder compartilhá-las. Desse modo, mesmo distante do Brasil, seguir fazendo minha parte na resistência imprescindível a esse momento vergonhoso da nossa história.
No entanto, não desconheço minha necessidade (e responsabilidade) de escrever mais amplamente, de expor melhor minhas concepções, gerando, em contrapartida, novos diálogos, quiçá mais profundos. Por isso, a escolha  oportuna de voltar ao Blog, nesse momento.

Desde cedo, hoje, lendo os posts de saudação a Lula, constato, uma vez mais, a imensidão de amor que ele desperta naqueles que, desde as camadas menos privilegiadas até a dos grandes intelectuais de nosso tempo, acreditam na possibilidade de construção da justiça social.

Não há de ser por acaso que os que desprezam Lula, os que o vilipendiam e o injuriam sejam os representantes da medíocre camada acomodada em vantagens individuais, os que temem as transformações, os que negam a existência de privilégios e se defendem, paranoicamente, procurando aniquilar qualquer líder que questione essas posições egoístas.

Votei em Lula nas duas vezes em que ele se elegeu Presidente e não me arrependi em nenhum momento de minha escolha. Ele representou e representa meus anseios e, dentro de suas possibilidades, alçou o Brasil à posição de uma nação digna do respeito internacional, que bem merece ter.
Lula não fez isso sozinho, é bem verdade. Mas foi ele que carregou a bandeira. Por isso está preso. Porque é um símbolo poderoso da força do desejo de tantos brasileiros, de diferentes estratos sociais, que acreditam na possibilidade de haver uma vida digna para todos.

Não sou uma pessoa nada diplomática e, mesmo em Lula, por quem tenho tanto respeito, às vezes me assusta a capacidade de andar na corda bamba, que a postura um tanto reverente dos cargos públicos exige. Por isso eu jamais seria capaz de concorrer a um cargo político. Tiro o meu chapéu para quem sabe fazer reverências dignas, sendo bem-ensinado pela vida. Sou rebelde demais para isso. Mas, minha incompetência, nesse setor, não me impede de fazer o reconhecimento da importância que tem Lula no panorama nacional e mundial.
Não julgo que ele seja “o cara”. Mais do que seguir repetindo um clichê desgastado, acredito que Lula seja o símbolo de alguma coisa maior e mais verdadeira, que vem sendo resgatada em muitas sociedades mundiais e que trará uma quebra dos padrões que têm feito, dos seres humanos, parte de um mecanismo sórdido de escravização, em benefício de uma conjuntura na qual o dinheiro é o deus supremo.

Sim, é pela boa educação (não unicamente formal) que podemos chegar a compreender melhor nosso próximo e a desenvolver compaixão mútua. Lula teve as bases desses princípios na criação amorosa de uma mãe extremamente dedicada e as desenvolveu nas famílias que constituiu, encontrando, por isso mesmo – porque soube identificá-las - parceiras leais e dedicadas. E atualmente faz de seu tempo, em sórdida reclusão imposta, um espaço para buscar mais e mais informações, desenvolvendo novas reflexões, que expandem sua sabedoria e o fortalecem.
Em todo este tempo em reclusão, Lula não esmoreceu, nem aceitou barganhas. Segue de cabeça erguida. Declara seu amor irrestrito por uma infinidade de pessoas e por coisas simples, sem envergonhar-se disso. Não se queixa. E tanto expressa indignação pelas vilezas de que é vítima, como pela destruição do país e pela penalização perversa à que a população vem sendo submetida.

Por tudo isso eu o julgo um gigante, e não tenho a menor dificuldade em reconhecer a incomensurável importância de sua existência.

Há controvérsias sobre o dia exato em que Luiz Inácio da Silva veio ao mundo. Os registros não garantem a exatidão do primeiro vagido daquele bebê predestinado a ser um grande homem público, dono de coragem, tenacidade, inteligência, amorosidade e argúcia ímpares. Que importam as certidões? Lula é o melhor atestado de sua própria existência.

Agradeço à vida por nossa contemporaneidade. Por ter-me permitido celebrar um tempo em que presenciei o povo, totalmente livre, viver o júbilo de sua chegada à Presidência da República. Nunca esquecerei aquele momento de glória, ainda sabendo que é exatamente aquele instante - de superação de todas as humilhações populares - que seus algozes não perdoam, nem perdoarão, jamais.

A Lula eu digo: muito grata por ser quem é.  Imperfeito, como todos nós, mas comprometido com a capacidade genuína de recomeçar sempre, buscando ser melhor. Por nos ensinar, pelo exemplo, a fé no amor, acima de qualquer outra crença. Por contagiar, a todos, com o brilho de seu olhar - mesmo quando embaciado pela dor - vindo da solidariedade que defende a cada momento.

Gritar Lula Livre não é favor, nem virtude. É dever de quem acredita na Vida. Uma parte de todos nós está definhando, enquanto Lula não estiver de volta ao convívio de seu povo, onde demonstra e estimula a melhor forma de honrarmos nossas raízes, alimentados pela seiva que sustenta nossa brasilidade.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Minha parte


 Minha parte

 

Fui assistir ao filme “O Processo”.

Diferentemente de outras vezes, não vou, aqui, elaborar uma crítica cinematográfica, nem mesmo analisar os conteúdos do filme, que, geralmente em grande parte implícitos,  ali ressaltam explicitamente. Cada close é uma revelação, para quem sabe e quer enxergar.

Tanto tempo sem escrever, no entanto, volto ao blog para, aproveitando as emoções que brotaram em mim, enquanto assistia e relembrava aqueles momentos históricos,  compartilhar e refletir sobre nosso país e nosso povo.

Chamo de povo a todos. Mesmo àqueles com quem não me identifico nada. Mesmo àqueles que têm horror de pertencer a esse grupo. Somos, todos nós, o povo desse país.

Não votei na Dilma, já declarei inúmeras vezes. Nunca fui filiada a nenhum partido político, nem pretendo ser. No entanto, tendo passado anos sem votar, quando voltei a fazê-lo foi para votar no Lula. Vê-lo eleito Presidente encheu minha alma de alegria e esperança de ver nascer um país mais justo!

No dia de sua posse, lembro-me bem, enquanto assistia à cerimônia e às comemorações, fui reorganizando minha papelada, livrando-me de velhas agendas, atualizando minhas anotações e contas, como se, também eu, fosse começar um novo governo em minha própria vida.

E nunca me arrependi de ter votada em Lula, nas duas ocasiões em que se elegeu. Mesmo tendo me decepcionado com atitudes suas, distantes de minhas expectativas, aprendi, pouco a pouco a perceber que, além de ser grande líder, um grande articulador, uma criatura especialmente brilhante, ele era, antes de tudo, um ser humano e, como tal, falível.

Segui acompanhando o que aconteceu em seu primeiro governo, contabilizei erros e acertos, percebendo o imenso avanço social que o país alcançou. Para mim essa era a meta mais importante. E ia sendo conquistada. Valeu, portanto!

Nunca me interessei em saber se Lula bebia cachaça ou champanhe. Sim, preocupei-me com sua saúde, desde que, às vésperas da eleição, ele andava rodava o país, comendo amendoins nas viagens aéreas, e virando noites, em fim de campanha. Torci muito para que dona Marisa cumprisse sua promessa de regular o cardápio e os hábitos alimentares do marido. Por ele, sim, mas principalmente pela missão gigantesca que ele abraçara, ao conquistar a Presidência do Brasil.

Jamais me ocupei em saber se a Primeira Dama era elegante ou não. Se fez plástica, se falava ou não falava vários idiomas. Tivéramos Primeiras Damas elegantes e letradas, que nem por isso se saíram tão bem na difícil função que ocuparam, por dever.

Olhando pra trás, lembrava-me de um certo presidente atlético, louro e de família de classe alta, que defendia o combate à corrupção e que, uma vez empossado, deu a volta no país, meteu-se em escândalos que envolveram crimes insolúveis e destruiu nossa imagem no exterior.

Lula, ao contrário, mesmo nunca tendo feito um curso universitário, foi reconhecido pela comunidade acadêmica internacional, recebendo títulos de doutor, por seu trabalho em prol dos mais pobres, por sua  luta incansável contra a miséria e por ter conseguido equiparar o Brasil aos países “fortes” economicamente.

Não tenho dúvida de que se Lula não conseguiu manter o apoio dos grupos mais poderosos, não foi pelos erros que cometeu. Foi por aquilo que deu certo. E, é importante ressaltar,  temos uma sociedade escravagista que, aparentemente generosa, é até capaz de investir no filho do escravo, desde que ele não queira se igualar ao sinhozinho e continue a servi-lo pelo resto da vida, de preferência sem se queixar.

Lula foi a Geni da música do Chico. Serviu enquanto precisavam dele como símbolo. Depois passou a ser apedrejado, impiedosamente.

A elite pensava que acabaria com a festa de operários no poder ao cabo de 4 anos, mas Lula se reelegeu e, mais ainda, findo seu segundo mandato, conseguiu a façanha de fazer a primeira presidenta desse país. Dilma se elegeu, carregada por ele, ninguém tem dúvida, mas, com seu estilo próprio, com outras qualidades e defeitos diferentes, conseguiu chegar ao final do primeiro mandato.

Isso, para os poderosos, tornou-se quase insultante. Uma mulher que nunca fez questão de parecer simpática, que não representou,  em nenhum momento, o papel da mulherzinha, nem mesmo quando ficou gravemente doente, passou a ser vista como um escárnio, por aqueles que tentaram competir com ela na campanha pelo segundo mandato e pelo os que apoiaram esses competidores derrotados.

Refletindo a partir das imagens desse processo, concluo que somos um povo infantil. Não permitimos falhas àqueles que, como chefes da nação, representam, simbolicamente, o Pai e a Mãe. Ao elegê-los, pretendemos que sejam onipresentes, oniscientes e sempre fortes, sem falhas que nos envergonhem.

Isso tudo acontece porque somos desenraizados. Herdeiros de uma sociedade que permitiu o massacre de nossos ancestrais, que continua perpetuando a escravidão de nossos semelhantes, não temos um passado de que nos orgulhar e, portanto, não zelamos pela Vida, de forma a vir a  ter um futuro.

Assim, parte de nós não reagiu suficientemente ao complô urdido para tirar Dilma do governo, enquanto outra parte se aliou aos mortos-vivos, quando essa quadrilha que está aí, composta de zumbis, tomou o poder com a intenção deliberada de destruir a nação.

Semelhantes a herdeiros incapazes, assistimos e/ou contribuímos para a dilapidação do patrimônio, com um ressentimento próprio de quem tem a inveja constitucional, de que tão bem tratou Melanie Klein – a inveja da potência do seio materno – as riquezas da terra.

Se não fôssemos crianças vorazes, teríamos resistido aos usurpadores e, como adolescentes saudáveis, nos disporíamos a participar da reorganização da casa, que bem precisava ser feita, é verdade. Sem destituir aquela que havia sido eleita, sem imputar-lhe crimes que ela não cometeu, para justificar nossa ganância, nossa pressa, nossa ingratidão.

Dilma carregava, ainda mais, a pecha de ser representante daqueles que se rebelaram contra o golpe militar. E nenhum de nós quer lembrar que ficamos subjugados por mais de 30 anos, porque permitimos que aquele golpe fosse realizado.

Sim, somos um povo irresponsável. Como crianças abusadas, seguimos contabilizando mazelas e seguindo modelos ilusórios. Qualquer Capitão Gancho ganha nossa admiração, porque nos sentimos órfãos e não queremos crescer.

E aí estamos. Há quem acredite que teremos eleições. Há quem comece (tardiamente, a 4 meses do período previsto para o pleito, com uma Copa do Mundo no meio) a tentar se convencer de que há candidatos possíveis.

Na verdade, neste exato momento, vivemos mais uma das centenas de encenações em que temos estado envolvidos há pelo menos 3 ou 4 anos. Armam-se situações, cada vez mais aterradoras, para destruir mais e mais nossa autoestima, já em frangalhos.

Tendo nos tornado um país de delações premiadas, de prisões arbitrárias ou encenadas e de habeas-corpus sem fundamentos legais, de proteções e perseguições injustificadas, vimos abandonando dia a dia nosso compromisso com a ética e com os valores fundamentais das verdadeiras relações humanas.

Hoje brada-se, a toda hora, o nome de Deus, evoca-se a instituição família e se declara fidelidade às leis, sem pudor e sem compromisso com a verdade.

Sim, tornamo-nos um país triste, um país em que parte da população é psicótica ou psicopática e outra parte está deprimida. O cenário ideal para a instauração de um sistema totalitário.

Quando acabou o filme, saí muito envergonhada, sentindo-me impotente, como impotentes estiveram os que acompanharam e defenderam Dilma Roussef. Senti muita vergonha de fazer parte de um povo tão infantil, frágil, despreparado. Como se não bastasse a dor de reconhecer o golpe que destituiu uma Presidenta democraticamente eleita, eu percebi que ele me atingira pessoalmente, ao me fazer reconhecer que distância absurda existe entre os valores que defendo e a postura de familiares, amigos e colegas meus, que eu supunha meus pares.

Há quem me aconselhe a não misturar as coisas. Podemos conviver socialmente e manter a amizade, independentemente da posição política que defendemos, eles dizem. Mas isso só é possível, quando os posicionamentos políticos se apoiam em valores éticos, que supõem um arcabouço moral, diferente do simulacro moralista e espetaculoso, que cercou os acontecimentos do impeachment e que dão suporte à Operação Lava Jato.

Serão necessários dezenas de anos para que o Brasil possa se recuperar. Já não estarei aqui para testemunhar, se isso vier a acontecer.  Felizmente a Vida continua e mesmo que, para cada dez passos à frente, seja necessário computar três ou quatro pra trás, a humanidade segue seu rumo. Só o que podemos, se temos alguma consciência é fazer, da melhor forma possível, a nossa parte. 




Fui assistir ao filme “O Processo”.

Diferentemente de outras vezes, não vou, aqui, elaborar uma crítica cinematográfica, nem mesmo analisar os conteúdos do filme, que, geralmente em grande parte implícitos,  ali ressaltam explicitamente. Cada close é uma revelação, para quem sabe e quer enxergar.

Tanto tempo sem escrever, no entanto, volto ao blog para, aproveitando as emoções que brotaram em mim, enquanto assistia e relembrava aqueles momentos históricos,  compartilhar e refletir sobre nosso país e nosso povo.

Chamo de povo a todos. Mesmo àqueles com quem não me identifico nada. Mesmo àqueles que têm horror de pertencer a esse grupo. Somos, todos nós, o povo desse país.

Não votei na Dilma, já declarei inúmeras vezes. Nunca fui filiada a nenhum partido político, nem pretendo ser. No entanto, tendo passado anos sem votar, quando voltei a fazê-lo foi para votar no Lula. Vê-lo eleito Presidente encheu minha alma de alegria e esperança de ver nascer um país mais justo!

No dia de sua posse, lembro-me bem, enquanto assistia à cerimônia e às comemorações, fui reorganizando minha papelada, livrando-me de velhas agendas, atualizando minhas anotações e contas, como se, também eu, fosse começar um novo governo em minha própria vida.

E nunca me arrependi de ter votada em Lula, nas duas ocasiões em que se elegeu. Mesmo tendo me decepcionado com atitudes suas, distantes de minhas expectativas, aprendi, pouco a pouco a perceber que, além de ser grande líder, um grande articulador, uma criatura especialmente brilhante, ele era, antes de tudo, um ser humano e, como tal, falível.

Segui acompanhando o que aconteceu em seu primeiro governo, contabilizei erros e acertos, percebendo o imenso avanço social que o país alcançou. Para mim essa era a meta mais importante. E ia sendo conquistada. Valeu, portanto!

Nunca me interessei em saber se Lula bebia cachaça ou champanhe. Sim, preocupei-me com sua saúde, desde que, às vésperas da eleição, ele andava rodava o país, comendo amendoins nas viagens aéreas, e virando noites, em fim de campanha. Torci muito para que dona Marisa cumprisse sua promessa de regular o cardápio e os hábitos alimentares do marido. Por ele, sim, mas principalmente pela missão gigantesca que ele abraçara, ao conquistar a Presidência do Brasil.

Jamais me ocupei em saber se a Primeira Dama era elegante ou não. Se fez plástica, se falava ou não falava vários idiomas. Tivéramos Primeiras Damas elegantes e letradas, que nem por isso se saíram tão bem na difícil função que ocuparam, por dever.

Olhando pra trás, lembrava-me de um certo presidente atlético, louro e de família de classe alta, que defendia o combate à corrupção e que, uma vez empossado, deu a volta no país, meteu-se em escândalos que envolveram crimes insolúveis e destruiu nossa imagem no exterior.

Lula, ao contrário, mesmo nunca tendo feito um curso universitário, foi reconhecido pela comunidade acadêmica internacional, recebendo títulos de doutor, por seu trabalho em prol dos mais pobres, por sua  luta incansável contra a miséria e por ter conseguido equiparar o Brasil aos países “fortes” economicamente.

Não tenho dúvida de que se Lula não conseguiu manter o apoio dos grupos mais poderosos, não foi pelos erros que cometeu. Foi por aquilo que deu certo. E, é importante ressaltar,  temos uma sociedade escravagista que, aparentemente generosa, é até capaz de investir no filho do escravo, desde que ele não queira se igualar ao sinhozinho e continue a servi-lo pelo resto da vida, de preferência sem se queixar.

Lula foi a Geni da música do Chico. Serviu enquanto precisavam dele como símbolo. Depois passou a ser apedrejado, impiedosamente.

A elite pensava que acabaria com a festa de operários no poder ao cabo de 4 anos, mas Lula se reelegeu e, mais ainda, findo seu segundo mandato, conseguiu a façanha de fazer a primeira presidenta desse país. Dilma se elegeu, carregada por ele, ninguém tem dúvida, mas, com seu estilo próprio, com outras qualidades e defeitos diferentes, conseguiu chegar ao final do primeiro mandato.

Isso, para os poderosos, tornou-se quase insultante. Uma mulher que nunca fez questão de parecer simpática, que não representou,  em nenhum momento, o papel da mulherzinha, nem mesmo quando ficou gravemente doente, passou a ser vista como um escárnio, por aqueles que tentaram competir com ela na campanha pelo segundo mandato e pelo os que apoiaram esses competidores derrotados.

Refletindo a partir das imagens desse processo, concluo que somos um povo infantil. Não permitimos falhas àqueles que, como chefes da nação, representam, simbolicamente, o Pai e a Mãe. Ao elegê-los, pretendemos que sejam onipresentes, oniscientes e sempre fortes, sem falhas que nos envergonhem.

Isso tudo acontece porque somos desenraizados. Herdeiros de uma sociedade que permitiu o massacre de nossos ancestrais, que continua perpetuando a escravidão de nossos semelhantes, não temos um passado de que nos orgulhar e, portanto, não zelamos pela Vida, de forma a vir a  ter um futuro.

Assim, parte de nós não reagiu suficientemente ao complô urdido para tirar Dilma do governo, enquanto outra parte se aliou aos mortos-vivos, quando essa quadrilha que está aí, composta de zumbis, tomou o poder com a intenção deliberada de destruir a nação.

Semelhantes a herdeiros incapazes, assistimos e/ou contribuímos para a dilapidação do patrimônio, com um ressentimento próprio de quem tem a inveja constitucional, de que tão bem tratou Melanie Klein – a inveja da potência do seio materno – as riquezas da terra.

Se não fôssemos crianças vorazes, teríamos resistido aos usurpadores e, como adolescentes saudáveis, nos disporíamos a participar da reorganização da casa, que bem precisava ser feita, é verdade. Sem destituir aquela que havia sido eleita, sem imputar-lhe crimes que ela não cometeu, para justificar nossa ganância, nossa pressa, nossa ingratidão.

Dilma carregava, ainda mais, a pecha de ser representante daqueles que se rebelaram contra o golpe militar. E nenhum de nós quer lembrar que ficamos subjugados por mais de 30 anos, porque permitimos que aquele golpe fosse realizado.

Sim, somos um povo irresponsável. Como crianças abusadas, seguimos contabilizando mazelas e seguindo modelos ilusórios. Qualquer Capitão Gancho ganha nossa admiração, porque nos sentimos órfãos e não queremos crescer.

E aí estamos. Há quem acredite que teremos eleições. Há quem comece (tardiamente, a 4 meses do período previsto para o pleito, com uma Copa do Mundo no meio) a tentar se convencer de que há candidatos possíveis.

Na verdade, neste exato momento, vivemos mais uma das centenas de encenações em que temos estado envolvidos há pelo menos 3 ou 4 anos. Armam-se situações, cada vez mais aterradoras, para destruir mais e mais nossa autoestima, já em frangalhos.

Tendo nos tornado um país de delações premiadas, de prisões arbitrárias ou encenadas e de habeas-corpus sem fundamentos legais, de proteções e perseguições injustificadas, vimos abandonando dia a dia nosso compromisso com a ética e com os valores fundamentais das verdadeiras relações humanas.

Hoje brada-se, a toda hora, o nome de Deus, evoca-se a instituição família e se declara fidelidade às leis, sem pudor e sem compromisso com a verdade.

Sim, tornamo-nos um país triste, um país em que parte da população é psicótica ou psicopática e outra parte está deprimida. O cenário ideal para a instauração de um sistema totalitário.

Quando acabou o filme, saí muito envergonhada, sentindo-me impotente, como impotentes estiveram os que acompanharam e defenderam Dilma Roussef. Senti muita vergonha de fazer parte de um povo tão infantil, frágil, despreparado. Como se não bastasse a dor de reconhecer o golpe que destituiu uma Presidenta democraticamente eleita, eu percebi que ele me atingira pessoalmente, ao me fazer reconhecer que distância absurda existe entre os valores que defendo e a postura de familiares, amigos e colegas meus, que eu supunha meus pares.

Há quem me aconselhe a não misturar as coisas. Podemos conviver socialmente e manter a amizade, independentemente da posição política que defendemos, eles dizem. Mas isso só é possível, quando os posicionamentos políticos se apoiam em valores éticos, que supõem um arcabouço moral, diferente do simulacro moralista e espetaculoso, que cercou os acontecimentos do impeachment e que dão suporte à Operação Lava Jato.

Serão necessários dezenas de anos para que o Brasil possa se recuperar. Já não estarei aqui para testemunhar, se isso vier a acontecer.  Felizmente a Vida continua e mesmo que, para cada dez passos à frente, seja necessário computar três ou quatro pra trás, a humanidade segue seu rumo. Só o que podemos, se temos alguma consciência é fazer, da melhor forma possível, a nossa parte.