CHAMADO
“É
inevitável que eu me vá. Que tenha a coragem e a determinação de ir a meu
encontro!”
Com este
pensamento, tento reabrir este espaço, quase esquecido.
A pandemia,
a volta à minha terra de origem, a morte de minha mãe foram uma série de
estranhezas e dores que eu vivi só, ainda que recebendo certas atenções e carinhos, amáveis, mas inócuos.
Através da Internet, não deixei em nenhum momento de participar de trabalhos coletivos, de
trabalhar, de buscar formas de seguir adiante.
Sim, estão
para sempre nas redes sociais, (de que não escaparemos jamais, nem depois de
mortos – horror!), o registro de como me envolvi em movimentos necessários à reconquista das dignidades individuais e social.
Mas, quase como um interdito, a palavra escrita,
minha fiel e antiga companheira, apartou-se de mim e, desde então, vem me observando de longe, recusando-se a me servir
de compensação ou consolo para afetos que já não me arrebatam e até me
congelam a alma.
Fui me
tornando espectadora da vida. Sobrevivente apenas. Uma militante de causas tão
antigas e desgastadas, quanto meu velho (tão intenso) entusiasmo.
É como se eu estivesse traindo, em mim, a energia que sempre me moveu e me pusesse cada vez
mais distante, ao tentar participar, sem convicção, sem dedicação, sem
vislumbrar algo em que possa verdadeiramente fazer conexão com o ser
que sou.
Tempos
difíceis esses.
Bem distante,
no alto da montanha, resguardada de ruídos, de perturbações, de convites
incômodos, ouço apenas os sons da Natureza e, se até eles, tão essenciais, já
me estranham, será preciso reaprender a
percebê-los e integrá-los, através de uma atitude curiosa e reverencial.
Não sei mais
onde buscar notícias do mundo; desse imenso mundo minúsculo que começa logo ali,
na virada da estrada, e segue infinitamente por montes, desagua em cachoeiras, rios, mares, oceanos, entranhando-se e
contornando terras sem fim, que nem me apetece mais descobrir.
A
consciência de que tenho pouco tempo, dolorosa e urgenciante do agora, me
confronta.
Sair da
coxia, da plateia, da fila de espera e descobrir que não faço parte das cenas
que estão se desenrolando, que sou apenas alguém que está passando ao largo e vivendo simultaneamente muitas situações, todas aparentemente irreais,
é decepcionante, embora libertador.
Aceito a
porta entreaberta. Paro na soleira e ainda titubeando, dou o primeiro passo.
Preciso
atender à voz que vem me chamando nos sonhos.
13.01.25
M.I.E.S.

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