quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Pelos caminhos da vida terrena, a eternidade



Nasci envolta numa atmosfera religiosa. A escolha de meu nome veio do desespero de minha mãe, ao me ver quase natimorta. Clamando imediatamente por Nossa Senhora, prometeu chamar-me Maria, em homenagem à Grande Mãe, se eu sobrevivesse. Horas depois, já superada a tensão, uma freira - amiga da família - sugeriu que eu fosse Inez, em louvor (e compromisso!) à santa-mártir que morreu assassinada, para resguardar a própria virgindade. Sou do Espírito Santo por herança paterna, certamente longinquamente ligada aos mesmos princípios.

Não, não renego meu nome. Longe disso, gosto muito dessa combinação, que me tornou inegavelmente portuguesa, desde o princípio, e agraciada por tantos desejos amorosos e bem intencionados, que, uma vez compreendidos e elaborados, a nada me submeteram.

Na infância, estudei em escolas católicas. Se as experiências vividas ali me fortaleceram a sede pela justiça, porque estranhava a hipocrisia e a competição estimuladas em cada detalhe (mesmo quando me favoreciam), foi por isso, também, que me tornei essencialmente uma educadora e uma psicanalista.

No Colégio Notre Dame de Sion, além de aprender a valorizar a cultura francesa, encontrei a Soeur Cecília. Eu tinha 8 anos quando recebi, pelas suas mãos, os valores cristãos presentes nos Evangelhos. Em suas aulas de Religião, ela nos convidava a encenar e, mais que isso, a interpretar detalhadamente os textos do Novo Testamento. Éramos orientadas a buscar, nas entrelinhas deles, as lições de humanidade, transmitidas por Jesus aos apóstolos, que mais tarde as transcreveram, permitindo que se espalhassem pelo mundo, através dos tempos. 
Sem plateia e sem censura, Soeur Cecília fazia um lindíssimo trabalho nada pretensioso, dentro de sala de aula. A consciência que tenho hoje da importância que aquelas vivências tiveram para mim faz meu coração vibrar, em gratidão àquela educadora inigualável!

Mas, na adolescência, a vida me envolveu em duas situações críticas, que me levaram ao total desencanto com a Igreja. A primeira diz respeito à Confissão. Um monsenhor, sem nenhuma sensibilidade e respeito, entediado com a repetição de meus pequenos e insossos “pecados”, sussurrados mais por imposição do ritual, que por necessidade interna, censurou-me por estar sempre a cometer as mesmas falhas e ameaçou não me dar mais a absolvição. Demorei um tanto a perceber que ele queria, de fato, era ouvir um repertório mais estimulante e variado. 
Naquele dia, deixei o confessionário me sentindo rejeitada e até mesmo insultada. Não mais me confessei. Ainda bem. Corria o risco de me tornar uma grande “pecadora”, se quisesse corresponder a suas expectativas...

Pouco tempo depois, numa situação em que desconfiei que a Igreja Católica se prestava a uma atuação política não explicitada, sentindo-me confusa, procurei o Bispo Diocesano, a quem julgava conhecer suficientemente, com a expectativa de que pudesse ser um bom orientador naquela questão. Desejava que clarificasse, para mim, os acontecimentos que eu vinha presenciando e que não estava conseguindo compreender. 
Para meu terror, depois de me ouvir, ele me encaminhou ao Serviço Secreto de Informação do Exército. Pretendia, simplesmente, que eu me tornasse uma espiã, a favor da Ditadura Militar. Pasmem, se quiserem! Um dia ainda hei de contar, com detalhes, essa história. Mas, trago-a, aqui, por me fazer lembrar o motivo pelo qual me afastei deliberadamente da instituição Igreja Católica.

Para reforçar meu desencanto, ao me aproximar, muito tempo depois, de outras religiões, senti repetir-se a valorização de atitudes de interesses materiais, de controle, de poder sobre o outro. Apenas confirmei o que eu já sabia, portanto.
Mas nem tudo foi perdido. Pouco a pouco, venho encontrando na Natureza (interior e exterior) o espaço sagrado onde me recolher. E o faço, regularmente, sentindo o mesmo êxtase que me provocava o incenso das cerimônias que, com tanto fervor, frequentei no passado.

Aonde quero chegar com essas recordações, e o que me levou a evocá-las? Talvez vocês estejam aguardando que eu faça uma ancoragem no presente. Saio de minhas divagações individuais e aporto, na esperança de que nos possamos encontrar, em nossas reflexões mútuas:

Recebi há pouco, uma postagem sobre o Sínodo da Amazônia e, lendo as palavras do Papa Francisco, confirmo que o mais importante do que foi vivido na minha trajetória, ficou mesmo dentro de mim. Referindo-se aos críticos que atacam suas propostas quase revolucionárias, o Papa diz:

“Porque lhes falta a coragem de assumir assuntos terrenos, eles acreditam que estão assumindo os de Deus. Porque têm medo de fazer parte da humanidade, pensam que são parte de Deus. Porque não amam ninguém, iludem-se, pensando que amam Deus.”

Isto me fez pensar, com tristeza profunda, na quantidade de pessoas queridas, em que constato uma postura de negociação com o Divino. Semelhante ao que Paulo Freire denuncia que se faz com a Educação - ao construí-la num princípio bancário - sinto que a maioria das pessoas concebe a religião como um espaço de barganha. Elas como que depositam sua fé (?) - expressa em sacrifícios, em trabalhos servis à instituição, em tentativas de conversão de outras pessoas, em trocas de benesses - em busca de uma ampla proteção superior, que lhes garanta viver o lugar de filhos prediletos, isentos de sofrimentos e reconhecidos irrestritamente. Em palavras mais diretas: que lhes traga dividendos!

Em nome de uma doutrina que repetem sem compreensão, julgam e condenam - sem direito a apelação - seus semelhantes, chegando mesmo a maltratá-los e, mesmo assim, sentindo-se superiores a eles, em merecimento. Creem que esse investimento contínuo e cego lhes trará segurança e lucros. Em resumo, querem alcançar um idealizado paraíso, no delírio de se tornarem divinos, isolando-se no aprisionamento do egoísmo e da arrogância estéreis.

De Roma, as notícias, que nos chegam, mostram que o Papa Francisco está sofrendo uma enorme pressão de opositores aos princípios que defende. Nem poderia ser diferente. Ele ensina, sem pudor, que a tradição tem que estar voltada para a preservação do futuro, irrigando e alimentando -  como seiva -  o corpo maior que é a Vida, para que ela se renove e continue a frutificar.  Desse modo, descendo do púlpito a que foi alçado, aproxima-se cada vez mais do  Jesus crucificado, um ser humano feito Deus através da simplicidade, da humildade, do despojamento e da bondade e da profunda capacidade de compaixão, com que passou pela Terra.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Toque de alerta


Há quem me julgue excessivamente reativa, agressiva e até violenta, em meus comentários nas redes sociais.
Não sou mesmo, nem pretendo ser, uma pessoa absolutamente doce, tranquila ou desligada. Mas também não sou inconsequente, irresponsável ou cínica.
Claro, eu poderia fingir não ver e não ouvir, como fazem muitos que seguem aguardando o desfecho dos conflitos, para se posicionar a favor... de quem estiver no comando, é claro.

Nasci em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, lugar onde fazia sempre muito calor.  Quando eu era criança, aquela cidade era conhecida como a terra do Tenório. Tenório Cavalcanti fazia, na vida real, um personagem misto de bandido e justiceiro, mostrando-se extremamente poderoso e misterioso – uma espécie de cangaceiro urbano. Em Caxias, de então, enxergar era ver, de frente, as valas negras e sentir seu cheiro fétido, denunciante da podridão social.

Cresci em Petrópolis, nas montanhas do mesmo Estado do Rio, numa época em que a cidade era sempre bastante fria, envolta na neblina de um ambiente formado pelas consequências da ocupação mista de alemães e de mineiros, em sua maioria. Por alguma razão, parece-me que, aos poucos, as pessoas dali foram alimentando a pretensão de serem herdeiros da Coroa. Assim, Petrópolis não perdeu, ainda hoje, o ranço de se julgar A Cidade Imperial, e por isso não se preocupa em resolver nem os problemas de saneamento, nem aqueles gerados pelo alto índice de preconceitos e de arrogância, que a caracterizam. Em Petrópolis, conformar-me com o que via, sem denunciar ou buscar transformar, seria ter-me tornado mais uma pessoa medíocre e pretensiosa.

Morei no Rio de Janeiro que, próximo ao mar, deveria garantir horizontes amplos e esperança renovada a seus habitantes. E tem isso, em parte, a Cidade Maravilhosa. Mas, cheguei tarde demais, talvez, e tive que conviver, dolorosamente, com o descaso das camadas sociais privilegiadas, moradores dos bairros considerados nobres, que diariamente usufruem da servilidade que impõem a trabalhadores, cujo valor humano e social não reconhecem. O Rio de Janeiro é uma escola de superficialidade, encravada numa paisagem magnífica, cujas benesses são propriedade de uma casta. Ficar no Rio de Janeiro teria me exigido aprender a rir e calar-me, mesmo quando meus olhos quisessem chorar.

Hoje, vivo distante do Brasil. Assisto, de longe, o desmonte de meu país de nascimento, já tendo uma segunda nacionalidade herdada, que me garante uma velhice mais coerente com o que desejo ser e com o que sigo buscando ir formando em mim, até o fim de meus dias.

Para me comunicar com os amigos e conhecidos de terras distantes, acostumei-me a frequentar as redes sociais, na esperança de que, em alguma hora surjam, ali, as boas notícias com que sonho e pelas quais aguardo a cada momento, ansiosamente. Mesmo correndo o risco de que, com elas, alguém possa me provar que fui pessimista demais. Ah, como eu desejaria me penitenciar por ter (quem sabe, apressada ou levianamente?) feito avaliações tão severas, indevidamente!

No entanto, o que constato, pelas notícias diárias, é o extravazamento das valas negras  e a expansão dos terrenos desérticos morais, transformando o país num enorme terreno  estéril, geográfica e emocionalmente, onde não existe nenhum respeito à vida, nenhum pudor em fazer do egoísmo uma atitude banal, nenhum comprometimento com a realidade, nenhuma valorização do cuidado, da compaixão, da solidariedade.

Pergunto-me, muitas vezes, o que ainda sigo defendendo, se já nem mais tenho a ingenuidade de pensar os seres humanos como uma espécie em desenvolvimento?

Parece-me que sigo escrevendo, aos jorros, para não sucumbir. Para defender minha saúde psíquica e minha capacidade de sentir. No amontoado de inverdades, mentiras, declarações e denúncias criminosas, crueldades, perversões, descaso e frieza em que vivemos, o risco maior é virarmos robôs, zumbis, criaturas fakes, como essas que nos vêm tentando aprisionar.
Quando a gente se encolhe, se acomoda e se esconde, definha. E nosso verdadeiro self, nosso eu mais profundo, centro energético de nossa capacidade de criar e de transformar, vai-se desidratando e sucumbe. Assim, para não lidarmos com a indignação, com o medo, com a insegurança, podemos acabar impedidos de amar, porque somos - cada um de nós - um universo, onde esses campos sombrios existem e precisam ser identificados, para ser integrados e, só assim, fazer parte do fortalecimento necessário à existência plena.

Este momento era pra ser uma reflexão compartilhada, apenas. Acabou por se tornar um alerta. Se for possível, ouçam-no.



domingo, 27 de outubro de 2019

Celebrando a vida



Hoje é dia 27 de outubro, uma das datas em que se festeja o nascimento de Lula.

Escolho, como homenagem a ele, retomar meu Blog, para deixar minha mensagem à defesa dos direitos humanos, que ele tão bem representa.

Há mais de um ano, venho escrevendo publicamente apenas no Facebook, mesmo conhecendo os riscos que isto impõe: ser controlada, censurada, até perseguida e dispersar minhas reflexões em postagens instantâneas. Isto tudo,  além da dor de conhecer, ali, facetas cruéis de supostos amigos o que, muitas vezes, me obrigou a rompimentos, talvez definitivos. Por outro lado, levando em consideração a má qualidade e tendenciosidade da mídia em geral, o Face acabou por se constituir em um canal por onde receber notícias de parceiros (velhos e novos) e poder compartilhá-las. Desse modo, mesmo distante do Brasil, seguir fazendo minha parte na resistência imprescindível a esse momento vergonhoso da nossa história.
No entanto, não desconheço minha necessidade (e responsabilidade) de escrever mais amplamente, de expor melhor minhas concepções, gerando, em contrapartida, novos diálogos, quiçá mais profundos. Por isso, a escolha  oportuna de voltar ao Blog, nesse momento.

Desde cedo, hoje, lendo os posts de saudação a Lula, constato, uma vez mais, a imensidão de amor que ele desperta naqueles que, desde as camadas menos privilegiadas até a dos grandes intelectuais de nosso tempo, acreditam na possibilidade de construção da justiça social.

Não há de ser por acaso que os que desprezam Lula, os que o vilipendiam e o injuriam sejam os representantes da medíocre camada acomodada em vantagens individuais, os que temem as transformações, os que negam a existência de privilégios e se defendem, paranoicamente, procurando aniquilar qualquer líder que questione essas posições egoístas.

Votei em Lula nas duas vezes em que ele se elegeu Presidente e não me arrependi em nenhum momento de minha escolha. Ele representou e representa meus anseios e, dentro de suas possibilidades, alçou o Brasil à posição de uma nação digna do respeito internacional, que bem merece ter.
Lula não fez isso sozinho, é bem verdade. Mas foi ele que carregou a bandeira. Por isso está preso. Porque é um símbolo poderoso da força do desejo de tantos brasileiros, de diferentes estratos sociais, que acreditam na possibilidade de haver uma vida digna para todos.

Não sou uma pessoa nada diplomática e, mesmo em Lula, por quem tenho tanto respeito, às vezes me assusta a capacidade de andar na corda bamba, que a postura um tanto reverente dos cargos públicos exige. Por isso eu jamais seria capaz de concorrer a um cargo político. Tiro o meu chapéu para quem sabe fazer reverências dignas, sendo bem-ensinado pela vida. Sou rebelde demais para isso. Mas, minha incompetência, nesse setor, não me impede de fazer o reconhecimento da importância que tem Lula no panorama nacional e mundial.
Não julgo que ele seja “o cara”. Mais do que seguir repetindo um clichê desgastado, acredito que Lula seja o símbolo de alguma coisa maior e mais verdadeira, que vem sendo resgatada em muitas sociedades mundiais e que trará uma quebra dos padrões que têm feito, dos seres humanos, parte de um mecanismo sórdido de escravização, em benefício de uma conjuntura na qual o dinheiro é o deus supremo.

Sim, é pela boa educação (não unicamente formal) que podemos chegar a compreender melhor nosso próximo e a desenvolver compaixão mútua. Lula teve as bases desses princípios na criação amorosa de uma mãe extremamente dedicada e as desenvolveu nas famílias que constituiu, encontrando, por isso mesmo – porque soube identificá-las - parceiras leais e dedicadas. E atualmente faz de seu tempo, em sórdida reclusão imposta, um espaço para buscar mais e mais informações, desenvolvendo novas reflexões, que expandem sua sabedoria e o fortalecem.
Em todo este tempo em reclusão, Lula não esmoreceu, nem aceitou barganhas. Segue de cabeça erguida. Declara seu amor irrestrito por uma infinidade de pessoas e por coisas simples, sem envergonhar-se disso. Não se queixa. E tanto expressa indignação pelas vilezas de que é vítima, como pela destruição do país e pela penalização perversa à que a população vem sendo submetida.

Por tudo isso eu o julgo um gigante, e não tenho a menor dificuldade em reconhecer a incomensurável importância de sua existência.

Há controvérsias sobre o dia exato em que Luiz Inácio da Silva veio ao mundo. Os registros não garantem a exatidão do primeiro vagido daquele bebê predestinado a ser um grande homem público, dono de coragem, tenacidade, inteligência, amorosidade e argúcia ímpares. Que importam as certidões? Lula é o melhor atestado de sua própria existência.

Agradeço à vida por nossa contemporaneidade. Por ter-me permitido celebrar um tempo em que presenciei o povo, totalmente livre, viver o júbilo de sua chegada à Presidência da República. Nunca esquecerei aquele momento de glória, ainda sabendo que é exatamente aquele instante - de superação de todas as humilhações populares - que seus algozes não perdoam, nem perdoarão, jamais.

A Lula eu digo: muito grata por ser quem é.  Imperfeito, como todos nós, mas comprometido com a capacidade genuína de recomeçar sempre, buscando ser melhor. Por nos ensinar, pelo exemplo, a fé no amor, acima de qualquer outra crença. Por contagiar, a todos, com o brilho de seu olhar - mesmo quando embaciado pela dor - vindo da solidariedade que defende a cada momento.

Gritar Lula Livre não é favor, nem virtude. É dever de quem acredita na Vida. Uma parte de todos nós está definhando, enquanto Lula não estiver de volta ao convívio de seu povo, onde demonstra e estimula a melhor forma de honrarmos nossas raízes, alimentados pela seiva que sustenta nossa brasilidade.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Minha parte


 Minha parte

 

Fui assistir ao filme “O Processo”.

Diferentemente de outras vezes, não vou, aqui, elaborar uma crítica cinematográfica, nem mesmo analisar os conteúdos do filme, que, geralmente em grande parte implícitos,  ali ressaltam explicitamente. Cada close é uma revelação, para quem sabe e quer enxergar.

Tanto tempo sem escrever, no entanto, volto ao blog para, aproveitando as emoções que brotaram em mim, enquanto assistia e relembrava aqueles momentos históricos,  compartilhar e refletir sobre nosso país e nosso povo.

Chamo de povo a todos. Mesmo àqueles com quem não me identifico nada. Mesmo àqueles que têm horror de pertencer a esse grupo. Somos, todos nós, o povo desse país.

Não votei na Dilma, já declarei inúmeras vezes. Nunca fui filiada a nenhum partido político, nem pretendo ser. No entanto, tendo passado anos sem votar, quando voltei a fazê-lo foi para votar no Lula. Vê-lo eleito Presidente encheu minha alma de alegria e esperança de ver nascer um país mais justo!

No dia de sua posse, lembro-me bem, enquanto assistia à cerimônia e às comemorações, fui reorganizando minha papelada, livrando-me de velhas agendas, atualizando minhas anotações e contas, como se, também eu, fosse começar um novo governo em minha própria vida.

E nunca me arrependi de ter votada em Lula, nas duas ocasiões em que se elegeu. Mesmo tendo me decepcionado com atitudes suas, distantes de minhas expectativas, aprendi, pouco a pouco a perceber que, além de ser grande líder, um grande articulador, uma criatura especialmente brilhante, ele era, antes de tudo, um ser humano e, como tal, falível.

Segui acompanhando o que aconteceu em seu primeiro governo, contabilizei erros e acertos, percebendo o imenso avanço social que o país alcançou. Para mim essa era a meta mais importante. E ia sendo conquistada. Valeu, portanto!

Nunca me interessei em saber se Lula bebia cachaça ou champanhe. Sim, preocupei-me com sua saúde, desde que, às vésperas da eleição, ele andava rodava o país, comendo amendoins nas viagens aéreas, e virando noites, em fim de campanha. Torci muito para que dona Marisa cumprisse sua promessa de regular o cardápio e os hábitos alimentares do marido. Por ele, sim, mas principalmente pela missão gigantesca que ele abraçara, ao conquistar a Presidência do Brasil.

Jamais me ocupei em saber se a Primeira Dama era elegante ou não. Se fez plástica, se falava ou não falava vários idiomas. Tivéramos Primeiras Damas elegantes e letradas, que nem por isso se saíram tão bem na difícil função que ocuparam, por dever.

Olhando pra trás, lembrava-me de um certo presidente atlético, louro e de família de classe alta, que defendia o combate à corrupção e que, uma vez empossado, deu a volta no país, meteu-se em escândalos que envolveram crimes insolúveis e destruiu nossa imagem no exterior.

Lula, ao contrário, mesmo nunca tendo feito um curso universitário, foi reconhecido pela comunidade acadêmica internacional, recebendo títulos de doutor, por seu trabalho em prol dos mais pobres, por sua  luta incansável contra a miséria e por ter conseguido equiparar o Brasil aos países “fortes” economicamente.

Não tenho dúvida de que se Lula não conseguiu manter o apoio dos grupos mais poderosos, não foi pelos erros que cometeu. Foi por aquilo que deu certo. E, é importante ressaltar,  temos uma sociedade escravagista que, aparentemente generosa, é até capaz de investir no filho do escravo, desde que ele não queira se igualar ao sinhozinho e continue a servi-lo pelo resto da vida, de preferência sem se queixar.

Lula foi a Geni da música do Chico. Serviu enquanto precisavam dele como símbolo. Depois passou a ser apedrejado, impiedosamente.

A elite pensava que acabaria com a festa de operários no poder ao cabo de 4 anos, mas Lula se reelegeu e, mais ainda, findo seu segundo mandato, conseguiu a façanha de fazer a primeira presidenta desse país. Dilma se elegeu, carregada por ele, ninguém tem dúvida, mas, com seu estilo próprio, com outras qualidades e defeitos diferentes, conseguiu chegar ao final do primeiro mandato.

Isso, para os poderosos, tornou-se quase insultante. Uma mulher que nunca fez questão de parecer simpática, que não representou,  em nenhum momento, o papel da mulherzinha, nem mesmo quando ficou gravemente doente, passou a ser vista como um escárnio, por aqueles que tentaram competir com ela na campanha pelo segundo mandato e pelo os que apoiaram esses competidores derrotados.

Refletindo a partir das imagens desse processo, concluo que somos um povo infantil. Não permitimos falhas àqueles que, como chefes da nação, representam, simbolicamente, o Pai e a Mãe. Ao elegê-los, pretendemos que sejam onipresentes, oniscientes e sempre fortes, sem falhas que nos envergonhem.

Isso tudo acontece porque somos desenraizados. Herdeiros de uma sociedade que permitiu o massacre de nossos ancestrais, que continua perpetuando a escravidão de nossos semelhantes, não temos um passado de que nos orgulhar e, portanto, não zelamos pela Vida, de forma a vir a  ter um futuro.

Assim, parte de nós não reagiu suficientemente ao complô urdido para tirar Dilma do governo, enquanto outra parte se aliou aos mortos-vivos, quando essa quadrilha que está aí, composta de zumbis, tomou o poder com a intenção deliberada de destruir a nação.

Semelhantes a herdeiros incapazes, assistimos e/ou contribuímos para a dilapidação do patrimônio, com um ressentimento próprio de quem tem a inveja constitucional, de que tão bem tratou Melanie Klein – a inveja da potência do seio materno – as riquezas da terra.

Se não fôssemos crianças vorazes, teríamos resistido aos usurpadores e, como adolescentes saudáveis, nos disporíamos a participar da reorganização da casa, que bem precisava ser feita, é verdade. Sem destituir aquela que havia sido eleita, sem imputar-lhe crimes que ela não cometeu, para justificar nossa ganância, nossa pressa, nossa ingratidão.

Dilma carregava, ainda mais, a pecha de ser representante daqueles que se rebelaram contra o golpe militar. E nenhum de nós quer lembrar que ficamos subjugados por mais de 30 anos, porque permitimos que aquele golpe fosse realizado.

Sim, somos um povo irresponsável. Como crianças abusadas, seguimos contabilizando mazelas e seguindo modelos ilusórios. Qualquer Capitão Gancho ganha nossa admiração, porque nos sentimos órfãos e não queremos crescer.

E aí estamos. Há quem acredite que teremos eleições. Há quem comece (tardiamente, a 4 meses do período previsto para o pleito, com uma Copa do Mundo no meio) a tentar se convencer de que há candidatos possíveis.

Na verdade, neste exato momento, vivemos mais uma das centenas de encenações em que temos estado envolvidos há pelo menos 3 ou 4 anos. Armam-se situações, cada vez mais aterradoras, para destruir mais e mais nossa autoestima, já em frangalhos.

Tendo nos tornado um país de delações premiadas, de prisões arbitrárias ou encenadas e de habeas-corpus sem fundamentos legais, de proteções e perseguições injustificadas, vimos abandonando dia a dia nosso compromisso com a ética e com os valores fundamentais das verdadeiras relações humanas.

Hoje brada-se, a toda hora, o nome de Deus, evoca-se a instituição família e se declara fidelidade às leis, sem pudor e sem compromisso com a verdade.

Sim, tornamo-nos um país triste, um país em que parte da população é psicótica ou psicopática e outra parte está deprimida. O cenário ideal para a instauração de um sistema totalitário.

Quando acabou o filme, saí muito envergonhada, sentindo-me impotente, como impotentes estiveram os que acompanharam e defenderam Dilma Roussef. Senti muita vergonha de fazer parte de um povo tão infantil, frágil, despreparado. Como se não bastasse a dor de reconhecer o golpe que destituiu uma Presidenta democraticamente eleita, eu percebi que ele me atingira pessoalmente, ao me fazer reconhecer que distância absurda existe entre os valores que defendo e a postura de familiares, amigos e colegas meus, que eu supunha meus pares.

Há quem me aconselhe a não misturar as coisas. Podemos conviver socialmente e manter a amizade, independentemente da posição política que defendemos, eles dizem. Mas isso só é possível, quando os posicionamentos políticos se apoiam em valores éticos, que supõem um arcabouço moral, diferente do simulacro moralista e espetaculoso, que cercou os acontecimentos do impeachment e que dão suporte à Operação Lava Jato.

Serão necessários dezenas de anos para que o Brasil possa se recuperar. Já não estarei aqui para testemunhar, se isso vier a acontecer.  Felizmente a Vida continua e mesmo que, para cada dez passos à frente, seja necessário computar três ou quatro pra trás, a humanidade segue seu rumo. Só o que podemos, se temos alguma consciência é fazer, da melhor forma possível, a nossa parte. 




Fui assistir ao filme “O Processo”.

Diferentemente de outras vezes, não vou, aqui, elaborar uma crítica cinematográfica, nem mesmo analisar os conteúdos do filme, que, geralmente em grande parte implícitos,  ali ressaltam explicitamente. Cada close é uma revelação, para quem sabe e quer enxergar.

Tanto tempo sem escrever, no entanto, volto ao blog para, aproveitando as emoções que brotaram em mim, enquanto assistia e relembrava aqueles momentos históricos,  compartilhar e refletir sobre nosso país e nosso povo.

Chamo de povo a todos. Mesmo àqueles com quem não me identifico nada. Mesmo àqueles que têm horror de pertencer a esse grupo. Somos, todos nós, o povo desse país.

Não votei na Dilma, já declarei inúmeras vezes. Nunca fui filiada a nenhum partido político, nem pretendo ser. No entanto, tendo passado anos sem votar, quando voltei a fazê-lo foi para votar no Lula. Vê-lo eleito Presidente encheu minha alma de alegria e esperança de ver nascer um país mais justo!

No dia de sua posse, lembro-me bem, enquanto assistia à cerimônia e às comemorações, fui reorganizando minha papelada, livrando-me de velhas agendas, atualizando minhas anotações e contas, como se, também eu, fosse começar um novo governo em minha própria vida.

E nunca me arrependi de ter votada em Lula, nas duas ocasiões em que se elegeu. Mesmo tendo me decepcionado com atitudes suas, distantes de minhas expectativas, aprendi, pouco a pouco a perceber que, além de ser grande líder, um grande articulador, uma criatura especialmente brilhante, ele era, antes de tudo, um ser humano e, como tal, falível.

Segui acompanhando o que aconteceu em seu primeiro governo, contabilizei erros e acertos, percebendo o imenso avanço social que o país alcançou. Para mim essa era a meta mais importante. E ia sendo conquistada. Valeu, portanto!

Nunca me interessei em saber se Lula bebia cachaça ou champanhe. Sim, preocupei-me com sua saúde, desde que, às vésperas da eleição, ele andava rodava o país, comendo amendoins nas viagens aéreas, e virando noites, em fim de campanha. Torci muito para que dona Marisa cumprisse sua promessa de regular o cardápio e os hábitos alimentares do marido. Por ele, sim, mas principalmente pela missão gigantesca que ele abraçara, ao conquistar a Presidência do Brasil.

Jamais me ocupei em saber se a Primeira Dama era elegante ou não. Se fez plástica, se falava ou não falava vários idiomas. Tivéramos Primeiras Damas elegantes e letradas, que nem por isso se saíram tão bem na difícil função que ocuparam, por dever.

Olhando pra trás, lembrava-me de um certo presidente atlético, louro e de família de classe alta, que defendia o combate à corrupção e que, uma vez empossado, deu a volta no país, meteu-se em escândalos que envolveram crimes insolúveis e destruiu nossa imagem no exterior.

Lula, ao contrário, mesmo nunca tendo feito um curso universitário, foi reconhecido pela comunidade acadêmica internacional, recebendo títulos de doutor, por seu trabalho em prol dos mais pobres, por sua  luta incansável contra a miséria e por ter conseguido equiparar o Brasil aos países “fortes” economicamente.

Não tenho dúvida de que se Lula não conseguiu manter o apoio dos grupos mais poderosos, não foi pelos erros que cometeu. Foi por aquilo que deu certo. E, é importante ressaltar,  temos uma sociedade escravagista que, aparentemente generosa, é até capaz de investir no filho do escravo, desde que ele não queira se igualar ao sinhozinho e continue a servi-lo pelo resto da vida, de preferência sem se queixar.

Lula foi a Geni da música do Chico. Serviu enquanto precisavam dele como símbolo. Depois passou a ser apedrejado, impiedosamente.

A elite pensava que acabaria com a festa de operários no poder ao cabo de 4 anos, mas Lula se reelegeu e, mais ainda, findo seu segundo mandato, conseguiu a façanha de fazer a primeira presidenta desse país. Dilma se elegeu, carregada por ele, ninguém tem dúvida, mas, com seu estilo próprio, com outras qualidades e defeitos diferentes, conseguiu chegar ao final do primeiro mandato.

Isso, para os poderosos, tornou-se quase insultante. Uma mulher que nunca fez questão de parecer simpática, que não representou,  em nenhum momento, o papel da mulherzinha, nem mesmo quando ficou gravemente doente, passou a ser vista como um escárnio, por aqueles que tentaram competir com ela na campanha pelo segundo mandato e pelo os que apoiaram esses competidores derrotados.

Refletindo a partir das imagens desse processo, concluo que somos um povo infantil. Não permitimos falhas àqueles que, como chefes da nação, representam, simbolicamente, o Pai e a Mãe. Ao elegê-los, pretendemos que sejam onipresentes, oniscientes e sempre fortes, sem falhas que nos envergonhem.

Isso tudo acontece porque somos desenraizados. Herdeiros de uma sociedade que permitiu o massacre de nossos ancestrais, que continua perpetuando a escravidão de nossos semelhantes, não temos um passado de que nos orgulhar e, portanto, não zelamos pela Vida, de forma a vir a  ter um futuro.

Assim, parte de nós não reagiu suficientemente ao complô urdido para tirar Dilma do governo, enquanto outra parte se aliou aos mortos-vivos, quando essa quadrilha que está aí, composta de zumbis, tomou o poder com a intenção deliberada de destruir a nação.

Semelhantes a herdeiros incapazes, assistimos e/ou contribuímos para a dilapidação do patrimônio, com um ressentimento próprio de quem tem a inveja constitucional, de que tão bem tratou Melanie Klein – a inveja da potência do seio materno – as riquezas da terra.

Se não fôssemos crianças vorazes, teríamos resistido aos usurpadores e, como adolescentes saudáveis, nos disporíamos a participar da reorganização da casa, que bem precisava ser feita, é verdade. Sem destituir aquela que havia sido eleita, sem imputar-lhe crimes que ela não cometeu, para justificar nossa ganância, nossa pressa, nossa ingratidão.

Dilma carregava, ainda mais, a pecha de ser representante daqueles que se rebelaram contra o golpe militar. E nenhum de nós quer lembrar que ficamos subjugados por mais de 30 anos, porque permitimos que aquele golpe fosse realizado.

Sim, somos um povo irresponsável. Como crianças abusadas, seguimos contabilizando mazelas e seguindo modelos ilusórios. Qualquer Capitão Gancho ganha nossa admiração, porque nos sentimos órfãos e não queremos crescer.

E aí estamos. Há quem acredite que teremos eleições. Há quem comece (tardiamente, a 4 meses do período previsto para o pleito, com uma Copa do Mundo no meio) a tentar se convencer de que há candidatos possíveis.

Na verdade, neste exato momento, vivemos mais uma das centenas de encenações em que temos estado envolvidos há pelo menos 3 ou 4 anos. Armam-se situações, cada vez mais aterradoras, para destruir mais e mais nossa autoestima, já em frangalhos.

Tendo nos tornado um país de delações premiadas, de prisões arbitrárias ou encenadas e de habeas-corpus sem fundamentos legais, de proteções e perseguições injustificadas, vimos abandonando dia a dia nosso compromisso com a ética e com os valores fundamentais das verdadeiras relações humanas.

Hoje brada-se, a toda hora, o nome de Deus, evoca-se a instituição família e se declara fidelidade às leis, sem pudor e sem compromisso com a verdade.

Sim, tornamo-nos um país triste, um país em que parte da população é psicótica ou psicopática e outra parte está deprimida. O cenário ideal para a instauração de um sistema totalitário.

Quando acabou o filme, saí muito envergonhada, sentindo-me impotente, como impotentes estiveram os que acompanharam e defenderam Dilma Roussef. Senti muita vergonha de fazer parte de um povo tão infantil, frágil, despreparado. Como se não bastasse a dor de reconhecer o golpe que destituiu uma Presidenta democraticamente eleita, eu percebi que ele me atingira pessoalmente, ao me fazer reconhecer que distância absurda existe entre os valores que defendo e a postura de familiares, amigos e colegas meus, que eu supunha meus pares.

Há quem me aconselhe a não misturar as coisas. Podemos conviver socialmente e manter a amizade, independentemente da posição política que defendemos, eles dizem. Mas isso só é possível, quando os posicionamentos políticos se apoiam em valores éticos, que supõem um arcabouço moral, diferente do simulacro moralista e espetaculoso, que cercou os acontecimentos do impeachment e que dão suporte à Operação Lava Jato.

Serão necessários dezenas de anos para que o Brasil possa se recuperar. Já não estarei aqui para testemunhar, se isso vier a acontecer.  Felizmente a Vida continua e mesmo que, para cada dez passos à frente, seja necessário computar três ou quatro pra trás, a humanidade segue seu rumo. Só o que podemos, se temos alguma consciência é fazer, da melhor forma possível, a nossa parte. 




terça-feira, 7 de novembro de 2017

Ideologia de gênero: quem inventou?

Com a autorização da autora - a prof. doutora em Filosofia Camila Prado - indico um texto imperdível: "Ideologia de gênero - quem inventou?" 

http://caririrevista.com.br/ideologia-de-genero-quem-inventou/



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Pátria - ali, de onde vim



Chico canta o "Cotidiano" e vem, de suas múltiplas origens, me dizer que, mesmo na delicadeza e na simplicidade, se pode ser muitos, o tempo todo.
Mestre da arte de vadiar pelos diversos seres que o habitam, me leva, sua voz, a minhas pequenas pátrias, a minha insistente busca de afinidades, no desejo obstinado de encontrar compatriotas.

Cresci estrangeira - numa casa "portuguesa com certeza" que tinha cheiro e cor de muito antes, de além-mar, e que foi, a um só tempo, esteio e estranheza, já que, lá fora, no chão, na argila ou na lama onde fui gerada, tinha vala negra e menininho barrigudo, sem calça e de pé no chão... E se me sufocou, sempre, o calor da temperatura-ambiente, simultaneamente só crescia, em mim, o fogo da vontade de me consumir em envolvimentos e aproximações.

Agora, o Chico canta o rio e o barco Paciência... E lá estou eu, atirada um ano atrás, no Rio Amazonas, buscando quem era, quem sou. Achei. Voltei cheia de mim. Quis mais que nunca a proximidade. Quis, mais que sempre, orgulhar-me da flama e da chama, ainda quando elas representem dor e até morte.

Fui outrora de uma terra onde brotava esperança.
Depois fui de uma outra, onde germinava coragem.
Fui dedicação e fui esquecimento... principalmente esquecimento de mim mesma.

Minha pátria, nesse exato momento, tem pouco mais (ou menos) de 30m² e hoje, enquanto escrevo, abriga vinho português, queijo francês, envolvidos pela magia indígena brasileira e, por isso mesmo, traz interiorização universal.
Estou indo... cada vez menos só... a caminho da construção de meu destino. Mas vou sozinha.

Se reconheço hinos e flâmulas nos parceiros de momentos sublimes, choro minha estrangeira e inadequada dor de ser só eu mesma, depois que tranco a porta e consigo me perder, até no box de um banheiro onde nem tenho espaço pra me virar.

Tive pátria, um dia, quando subi a montanha do orquidário Guinle, na Petrópolis da minha infância, e me senti livre, aspirando o perfume do mato e da terra e, quando, gritando minha alegria, provoquei desconforto a minha volta. Aquela terra era minha! Ao menos naquele ínfimo instante em que eu e ela nos misturamos -  essência pura!
Encontrei minha pátria outra vez, perto do céu, inebriada com a altura e a beleza da neve brilhante ao sol. Era eu que estava ali e eu era, a um só tempo, aquilo tudo!
Tive pátria, no país de meus avós, e chorei por aquele encontro, misturando as águas de riachos para tentar levar D. Pedro de volta a Inez de Castro, num momento eterno, que eu pude reter com minha respiração. E, também, na grande cambalhota cósmica que a terra do Vale do São José do Rio Preto me mostrou, tanto tempo antes. Senti a paisagem e soube que sempre fora assim.

Perdi minha Pátria tantas vezes também!
Uma vez foi quando, no colégio, menina ainda, me disseram que as águas que rolavam de meus olhos eram deselegantes e eu, chorando na hora da festa, era, portanto, um pária.
Depois, virando adulta, quando minha emoção foi chamada de stress. Acho que esgotamento nervoso é mais ou menos como embarque sem passaporte. Você fica retido na alfândega, porque não tem o reconhecimento externo para entrar nem sair, de nenhum lugar.

Mas Pátria, mesmo, eu própria me senti, por inteiro, quando pari meus filhos, com enorme dor e prazer extasiante. Pátria sangrenta e poderosa, de onde saíram três criaturas fortes e cheias de Vida que eu, terra fértil, favoreci eclodir.
E mais Pátria ainda fui, ao ver jorrar de meus seios, até então quase imperceptíveis, alimento quente e confortante. Ao vê-los, minhas crias/criaturas, saciadas e em paz. Ao ver-me nutriz - terra boa. Como quando se perderam e se encontraram, em mim, os companheiros que confiaram em minhas sendas. Que bom poder ser porto seguro! Que bom ser a terra mater/pater - pátria! Que bom conter e dar prazer!
E a experiência de poder ser terra à vista?
Que bonito o olhar que recolho, quando penso ser quimera e me posso
ver como Terra Prometida!

           Um dia, esse meu corpo foi pouco pra tanto querer - virei instituição. E soberba e pretensiosamente (só hoje sei) fui me tornando Escola. A Vida, como comprometimento, me ofereceu o mote: que fosse Viva a destinação que eu ia dar a minha história. E foi.
           Depois de, nem posso enumerar quantos, momentos de profunda emoção, eu sabia que minha pequena ilimitada pátria tinha ficado guardada dentro de muita gente. E pude libertá-la dos grilhões de tempo e de espaço.

                Hoje, sou quase velha. Disfarço bem, mas vou me encaminhando pra uma nova passagem. Procuro quais serão as próximas etapas. Cada vez mais lentamente, é verdade. Quem vê não diz, porque quem vê não sabe de um tempo em que fui intangível.

                A Pátria de hoje é fortalecida diariamente pelos desenganos, tanto quanto pelas surpreendentes pequenas alegrias: ora é um passarinho que canta um mio, ora uma criança que confirma: "Aqui encontrei amor"; ora um amigo antigo que acena solidariedade e compaixão; ora um desencontro novo que vira desafio.
                Minha pátria hoje, sem notícias de tevê ou de jornal, resume-se a afetos e a eles decidi me jogar por inteira. Vivo de poucos sorrisos, irrigo-me de lágrimas inevitáveis e sonho abraços.

                Minha pátria chega, às vezes, em encontros nunca vividos. Pode ser, como agora, na música do Chico, ou no "Assédio" do Bertolucci.  Mas, se o filme "O Paciente Inglês" falou tão profundamente em mim é porque, com certeza, tenho irmãos e parceiros, onde quer que eles estejam.
                Acabei por descobrir que, nesse chão mesmo, que tem nome e território demarcado como Brasil - e não é à toa -  mora meu fogo interior e tenho ido à procura dele.
                Tem horas que ele aparece na vela, que teimo em acender, ritualmente, pra pedir e agradecer - agradecer e pedir - num exercício sem fim de desejar e merecer... Outras vezes a chispa me pega no meio do sono e acordo tendo a certeza de ter sido visitada. Acolho a presença que me surpreende e acolho-me, na capacidade gratificante de ser ancoradouro.

                No céu, encontro a Luz e ela me diz –“Sossega! Tudo isso é muito maior que você!"
 Sou, nessa hora, parte de um todo que me envolve com tal segurança e tranquilidade, que posso saber exatamente de onde vim

                São pátria também - e são território e pertencimento - os fugazes e eternos momentos de encontro a dois. Delicio-me e peço que durem. Que parem todos os relógios, que pare meu coração-bomba/ritmada, que pare o ar, que eu possa saber que sou e que já não estou sozinha.
                Que eu possa esquecer que estive perdida, que eu possa despreocupar-me de ir lá fora e encontrar guardas da alfândega que vão querer saber:
-          Por quê?
-          Pra onde?
-          Pra quê?
Coisas a que eu, agora, só posso responder com um balanceio de cabeça, que aprendi, contemplando os passarinhos.
                                                                               

(Texto escrito em 07 de setembro de 2000, para ser lido no  Sexta Cultural do Centro Cultural Viva e publicado no blog www.vasosagrados.zip.net em 11.09.2007).

domingo, 15 de outubro de 2017

Por um dia em que se celebra a arte do magistério.


Fugi tudo que pude ao destino de ser professora.

Fadada desde sempre, oscilava entre o desejo, surgido ainda na infância, de querer mudar o mundo, salvando as crianças barrigudinhas, que via brincando na beira das valas negras, sem calças, nem sapatos (quando ia a Duque de Caxias aos domingos, visitar meus avós) e a premência de escrever poemas, surgida mais ou menos na mesma época.

Adolescente ainda, comecei a dar aulas particulares. Os alunos eram aqueles em que as escolas não apostavam o suficiente para dedicar-lhes a atenção individual que necessitavam, pediam, desejavam. Acolhidos, meus discípulos-problema convertiam-se em bons estudantes. Descobri que o caminho certo era pelo afeto, pelo zelo.

Quando me chegaram os filhos, com seu crescimento, fui em busca de uma escola boa o suficiente. Juro que tentei. Não havia. Ousei. Transformei, então, minha necessidade de dar-lhes uma educação de qualidade numa oportunidade para muitos.
Em 1974, ainda com 24 anos, fiz erguer a placa da Escola Viva, numa casa de muitas janelas azuis, no centro de Petrópolis. Paredes pintadas com ilustrações poéticas, transformamos sucatas em brinquedos que não se compravam em lojas. Fomos um sucesso desde o início!

15 anos de trabalho contínuo, noites espremidas em dias quase intermináveis, de sonhos arrebatadores, de paixão alucinante por projetos, que brotavam  tanto do brilho dos olhos, como das risadas ou tristezas das crianças. Delas sempre veio a Luz da criação e a coragem para não desistir e ousar cada dia um pouquinho mais.

Ainda sob as restrições dos tempos de perseguições e mediocridade, criamos um oásis de esperança, vivido na espontaneidade, na honestidade, na franqueza, no reconhecimento de nossas limitações e ao mesmo tempo na dedicação extrema a cada menino e menina, a cada família, a cada funcionário, a cada colaborador.

Meu Deus, como era bom!

Acompanhei o crescimento dos alunos, a hesitação dos pais, o desalento dos professores, suportando a hostilidade de uma parte da sociedade extremamente conservadora numa cidade que, ainda hoje, insiste em se gabar de ser imperial. E posso dizer que contribuí para que houvesse um sopro de saúde contagiando e vivificando a atmosfera local.

Depois, a Escola Viva seguiu seu destino e virou Centro Cultural.  E assim, insiste em manter desperto, ainda hoje, seu compromisso com as culturas brasileiras...

Hoje, 43 anos passados, num Brasil combalido, procuro em minhas lembranças, um esboço de roteiro, pra passar adiante àqueles que persistem em acreditar no único verdadeiro caminho de transformação humana: o da Educação.

Sempre afirmei minha crença em que as grandes mudanças se fazem do individual para o coletivo e que, por isso mesmo, a dedicação a cada ser humano, que estamos a formar, é fundamental para virmos poder criar um mundo melhor, mais justo, mais harmonioso, mais feliz. 
Qualquer tipo de discriminação e de segregação, qualquer espécie de seleção e estratificação, toda forma de avaliação quantitativa e de nivelamento é incompatível com o trabalho de formação de seres humanos livres e dignos.

O caminho é aquele mesmo que a menininha, olhando pela janela do carro, ao passar pelas ruas sem saneamento básico, na baixada fluminense, já adivinhava: é preciso juntar alma,  mãos e boas palavras  para iniciar, imediatamente, o trabalho. E fazê-lo com intensidade e comprometimento. Sempre!

Minha gratidão aos muitos professores, educadores, mestres, adultos, jovens ou crianças, que ainda estão por aqui ou já partiram, com quem venho compartilhando meu percurso.