sexta-feira, 17 de janeiro de 2025


 



Alvorecer

 

Entardece. Fora e dentro de mim.

Súbito, como no movimento da Natureza, surge-me um desejo de plenitude e de beleza.

 

Sou cada mínima folha da árvore à minha frente e o resistente brilho de um sol que já passou. Estou viva!

 

Longe, tantas questões que já não alcanço. A meu lado, ao toque de minha mão, uma ternura antiga, por tantas coisas vividas e nem sempre plenidificadas.

 

Hoje, a esperança de que, como em mim, as coisas sejam passageiras e plenas, me leva a acender a vela, lá fora, esperando, com alegria, um anoitecer que virá como promessa de amanhecer irrecusável.

                                                                               M.I.E,S.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025


 


CHAMADO

 

É inevitável que eu me vá. Que tenha a coragem e a determinação de ir a meu encontro!

Com este pensamento, tento reabrir este espaço, quase esquecido.

A pandemia, a volta à minha terra de origem, a morte de minha mãe foram uma série de estranhezas e dores que eu vivi só, ainda que recebendo certas atenções e carinhos, amáveis, mas inócuos.

Através da Internet, não deixei em nenhum momento de participar de trabalhos coletivos, de trabalhar, de buscar formas de seguir adiante.

Sim, estão para sempre nas redes sociais, (de que não escaparemos jamais, nem depois de mortos – horror!), o registro de como me envolvi em  movimentos necessários à reconquista das dignidades individuais e social.

Mas, quase como um interdito, a  palavra escrita, minha fiel e antiga companheira, apartou-se de mim e, desde então,  vem me observando de longe, recusando-se a me servir de compensação ou consolo para afetos que já não me arrebatam e até me congelam a alma.

Fui me tornando espectadora da vida. Sobrevivente apenas. Uma militante de causas tão antigas e desgastadas, quanto meu velho (tão intenso) entusiasmo.

É como se eu estivesse traindo, em mim, a energia que sempre me moveu e me pusesse cada vez mais distante, ao tentar participar, sem convicção, sem dedicação, sem vislumbrar algo em que possa verdadeiramente fazer conexão com o ser que sou.

Tempos difíceis esses.

Bem distante, no alto da montanha, resguardada de ruídos, de perturbações, de convites incômodos, ouço apenas os sons da Natureza e, se até eles, tão essenciais, já me  estranham, será preciso reaprender a percebê-los e integrá-los, através de uma atitude curiosa e reverencial.

Não sei mais onde buscar notícias do mundo; desse imenso mundo minúsculo que começa logo ali, na virada da estrada, e segue infinitamente por montes, desagua em cachoeiras,  rios, mares, oceanos, entranhando-se e contornando terras sem fim, que nem me apetece mais descobrir.

A consciência de que tenho pouco tempo, dolorosa e urgenciante do agora, me confronta.

Sair da coxia, da plateia, da fila de espera e descobrir que não faço parte das cenas que estão se desenrolando, que sou apenas alguém que está passando ao  largo e vivendo simultaneamente  muitas situações, todas aparentemente irreais, é decepcionante, embora libertador.

Aceito a porta entreaberta. Paro na soleira e ainda titubeando, dou o primeiro passo.

Preciso atender à voz que vem me chamando nos sonhos.

                                                                                   13.01.25

                                                                                   M.I.E.S.